Depois de responder mais de mil e quinhentas perguntas no formspring (mneto), percebi que existe uma questão recorrente feita por aqueles que estão começando a carreira ou saindo da faculdade. Uma questão que poderia ser resumida assim:

“Eu tenho alguma chance de conseguir emprego numa agência?”.

Pensando bem, não é uma questão nova. Lembro que quando era assistente de diretor de arte, na época do paleolítico dessa profissão, convivia com essa dúvida. Será que um dia vão me dar uma chance? Será que tenho algum talento? O que será que eu preciso para virar um diretor de arte de verdade?

Cheguei a perguntar para o diretor de arte de quem eu era assistente: “Vem cá…alguma vez disseram que você não tinha talento para essa profissão?

Ele lambeu o pincel [não, não existia computador naquela época] e respondeu: “Sim“.

A resposta me deu um certo alívio, afinal, ninguém nunca havia dito que eu não tinha talento…é certo que também não haviam dito que eu tinha, então arrisquei minha sorte: “e você acha que eu tenho talento para…

Não! E me deixa trabalhar, porra“.

Ou seja, se você está aí, inseguro, saindo da faculdade, entrando na faculdade, arrumando seu primeiro emprego ou desempregado atrás do primeiro emprego numa agência, não tema. A angústia do “será-que-eu-nasci-pra-isso?” todo mundo tem.

Então prepare-se, porque vou tentar responder justamente o seu caso.

Funciona assim: a não ser que você seja o próximo profissional genial, o Marcello Serpa da sua geração, vai ser muito difícil você saber se nasceu para essa profissão até que você adquira alguma experiência. Alias, se você acha que é o próximo gênio da publicidade brasileira, pare de ler este texto imediatamente por dois motivos:

Se você é mesmo um gênio, não tenho nada para dizer a você.
Se você não é, então você não passa de mais um arrogante que acha que é, aí este texto não vai sensibilizá-lo.

Muito bem, já que você continuou, assumo que você tem alguma humildade, mas é inseguro de seu talento, como 99% dos profissionais iniciantes. E o que preocupa você é como adquirir a tal experiência se ninguém o contrata.

A resposta para esta pergunta não é muito animadora. Se você é quem eu estou pensando, tenho uma triste notícia para lhe dar: você é um commodity, um jovem padrão. Igual a você tem um porrilhão de estudantes saídos de cursos técnicos, faculdades, Miami Ad School…até Panamericana. Tem uns até que conseguiram fazer estágio em Nova Iorque, em agências da moda.

A esta altura você vai dizer “puta cara baixo astral”.

Mas espere, não desista. Já que você leu até aqui, continue mais um pouco.

Pense comigo: quanto antes você se der conta que você não tem muito a oferecer, quanto antes você se ligar que sua formação é mediana e que você tem um conjunto de talentos semelhante à maioria dos outros caras com quem disputa vagas, melhor.

Porque agora você só precisa descobrir alguns diferenciais para se destacar na multidão.

Se você perguntar quais são estes diferenciais para 10 profissionais, vai receber 10 respostas diferentes. O que eu posso dizer é a atitude que faz com que eu considere a contratação de um profissional inexperiente para a Bullet.

Então vamos lá:

Dedique-se. Não, você não vai sair na sexta-feira a tarde para chegar à Maresias sem trânsito. Ferrou velhinho. Você tem que entrar na agência na hora certa e sair na hora que for possível. Você tem que deixar claro que a agência pode não ser a coisa mais importante da sua vida, mas que você está pronto para se dedicar à sua nova profissão. E isso não pode ficar só no discurso.

Tenha bom senso. Estou seguro que uma infinidade de ideias revolucionárias vem da cabeça de gente nova na profissão, como você. Gente sem vícios, com agressividade diante de velhos problemas. Mas por favor, pense antes de falar. Pense de novo. Não fique calado quando tiver certeza do que vai dizer. Mas evite falar tudo que lhe vem a cabeça, porque você vai ficar surpreso como algumas de suas ideias geniais já foram executadas faz alguns anos. Alias, esse desafio [e odeio esta palavra] é uma das coisas que tornam essa profissão tão legal.

Informe-se. Não me refiro ao velho chavão de “conheça o que está acontecendo no mundo”. Conhecer o que acontece no mundo é importante, mas aqui, me refiro a conhecer sua profissão. Quem são os grandes talentos de hoje e do passado. Quais são as campanhas que você precisa conhecer. Está tudo aí nos anuários. Descubra um profissional que você paga pau. Tente entender como ele pensa ou pensava através de suas campanhas.

Perca a timidez. Mais de uma vez, nas velhas reuniões de brainstorm da JWT, onde a criação estava toda reunida em volta de um problema, deixei de sugerir algo, para ouvir a mesma ideia um segundo depois, na boca de outro profissional. Lembro da raiva que sentia. Da sensação de “por que eu não falei, droga?!”. Mal sabia que se eu tivesse falado, talvez todos teriam me ignorado, “afinal moleque, quem é você pra ter ideias? Tenha bom senso, porra!” Mas eu garanto que você vai se sentir mais confiante e a equipe vai respeitá-lo se você participar com ideias e não for só um sujeito apático no canto da mesa. Trabalhe com a cabeça, mesmo quando pedirem que você trabalhe apenas com os braços.

Com isso você tem uma boa chance de ser contratado [na Bullet pelo menos]. Fica só faltando uma coisa: uma oportunidade. Uma vaga. Que as vezes não aparece nem para profissionais muito experientes.

Afinal, estar no lugar certo, na hora certa, muitas vezes é uma questão de sorte. E se você não tem sorte é bom que você saiba que nenhuma agência precisa de um profissional azarado.

Eu não conheço o Robson Henriques.

Mas ele leu meu texto sobre o Plínio Marcos, e mostrou o dele, que é muito melhor.

O link está nos comments aí do post 200. Leia lá, porque vale a pena.

Aqui deixo a mesma citação que Robson encerrou seu texto. Mais uma gota de Plínio Marcos:

Lá onde o vento encosta o lixo e as pragas botam os ovos, nos atalhos esquisitos, estreitos e escamosos do bom Deus, vive o povo lesado da sociedade. Eu sou o repórter dessa gente simples. Do povo que berra da geral mas não influencia no resultado. Se os meus textos são atuais, o mérito não é meu. A culpa é do país, que não mudou.

Faz um tempo que estou procurando um bom tema para escrever o ducentésimo post do NCPM. Essa é uma bela marca, considerando que isso aqui não é um blog de referências e sim um diário, com textos [quase] originais, como diz lá no “about”.

O fato é que não aparecia nada interessante.

Nem mesmo a tragédia do Haiti serviu de mote. Afinal, o que dizer de uma tragédia natural, sem culpados, sem lógica, sem explicações.

Aí estava aqui assistindo Dois Perdidos numa Noite Suja, baseado na peça de mesmo nome e me ocorreu que seu autor, Plínio Marcos, anda bem esquecido.

Plínio Marcos foi o nosso Bukowski. Nasceu em Santos, estudou apenas até concluir o primário, foi funileiro, jogador de futebol, mas foi só depois de conhecer a escritora modernista Pagu, é que passou a escrever peças de teatro. Com Barrela e Navalha na Carne, conseguiu se transformar num ícone da nossa contra-cultura.
Plínio escreveu para o Pasquim, Última Hora e Folha de São Paulo sem nunca ceder à censura.

Mas isso tudo você descobre dando um Google.

Meu post 200 é sobre a honra que tive em conhecer Plínio mesmo que por alguns segundos.

Os livros de Plínio Marcos eram muitas vezes editados por ele mesmo, que vestia um macacão e montava sua barraquinha em feiras e faculdades.

Foi numa dessas barraquinhas que o vi, lá pelo início dos anos 80. Pude reconhece-lo, porque lembrava de Beto Rockefeller, novela que ele havia atuado com Luiz Gustavo, no final da década de 60. Mas pensando bem, naquela época ele sempre aparecia num ou outro programa de entrevistas.

Plínio estava sentado no chão, fumando um cigarro, sem nenhuma intenção de se esforçar para vender nada. Comecei a folhear seus livros. Nessa hora chega uma garota, ve que são todos trabalhos do mesmo autor e me pergunta:

- Você conhece esse Plínio Marcos?

Olhei para ele, sentado no chão e respondi:

- Ah…ele escreve aí umas coisas. – e sorri para ele.

- Engraçado…tantos livros…nunca li nada dele. – ela continuou sem perceber quem estava a sua frente.

Do chão, Plínio deu outro trago profundo e falou arrastado:

- A mãe dele gosta de tudo que ele escreve. – virou o rosto, desinteressado.

Foi o suficiente para que a menina desistisse da compra.

Ele olhou pra mim com um sorriso cúmplice:

- Tá foda hoje? – perguntei.

- E quando não tá? – respondeu.

Ele tragou novamente e olhou para o chão. Peguei um exemplar do meu livro preferido, Querô.

- Autografa esse pra mim?

- Opa.

Levantou, apoiou a bituca do cigarro na banca, limpou as mãos no macacão, e escreveu na primeira página:

Fudido pra caralho, mas minha mãe gosta de mim. Plínio Marcos

Plínio morreu aos 64 anos.

Vou dizer o que eu acho sobre o infeliz episódio protagonizado pelo Boris Casoy.
Se você não estava no planeta terra recentemente, talvez não saiba que em seu jornal, na Bandeirantes, após uma externa com a mensagem de Natal de dois lixeiros, o áudio ficou aberto sobre a vinheta de intervalo e os espectadores puderam ouvir Boris dizendo:
- “Que merda, dois lixeiros desejando felicidades, do alto das suas vassouras…dois lixeiros, o mais baixo da escala de trabalho.”
Claro que a primeira reação de qualquer um, por menos hipócrita que seja, é de no mínimo ficar chocado que alguém como um âncora de telejornal diga uma imbecilidade dessas.
A primeira coisa que me ocorreu, é que um jornalista experiente como Boris Casoy, deveria saber dos riscos de comentar sua opinião pessoal enquanto está apresentando o jornal. A chance do audio vazar está longe de ser igual a zero.
Mas essa é apenas uma questão técnica.
O que me surpreende mesmo, é que muita gente ficou chocada com o que foi dito, mesmo sabendo de quem veio.
Afinal, os bons tempos de Boris em sua carreira já passaram faz algum tempo, mais exatamente desde que deixou a Folha de São Paulo.
De lá, passou por SBT e por Record antes de bater na Bandeirantes. Na Record, após sair, ficou um bom tempo acusando a emissora de te-lo demitido por pressão do governo Lula.
O comentário, apesar de nefasto pois o fato nunca se comprovou, é absolutamente compatível com a postura reacionária e de extrema direita do jornalista. Na década de 60, Boris foi acusado de ter ligações com o Comando de Caça aos Comunistas, o temido CCC do governo militar e foi ainda assessor de imprensa do Ministério da Agricultura do governo Médici.
Foi ele, também, quem fez a histórica [e traiçoeira] pergunta a Fernando Henrique Cardoso, no debate com Jânio Quadros [que acabou sendo decisiva para a derrota de FHC para a prefeitura de São Paulo]:
- “O senhor acredita em Deus?
Enfim, surpreende que um jornalista tão experiente cometa um equivoco tão ingênuo. Mas não surpreende que este mesmo jornalista tenha uma opinião tão preconceituosa.
Uma ver-go-nha.

Eu não sou especialista em nada.
Não entendo nada de segurança.
Nem de crime.
Não entendo exatamente a dinâmica dos morros do Rio.
Não sou capaz, sequer, de citar o nome de mais de meia dúzia de morros: Alemão, Pavão Pavãozinho, Mangueira, Vigário Geral, Borel…
Confundo Comando Vermelho com Linha Vermelha.
Não sei exatamente o que fazem as Unidades Pacificadoras.
Só desconfio que, pelo nome, são unidades pacificadoras.
O que soa bem já que, pelo menos, têm paz no nome.
Fico imaginando quanto tempo vai demorar para que as unidades pacificadoras comecem a vender segurança para os moradores do morro. Mas isso é especulação.
A verdade é que, ao que parece, estão fazendo efeito.
Mesmo sem ser especialista, é evidente que o aconteceu no Rio foi uma das maiores violências que o Brasil já permitiu que ocorresse.
Uma prova estampada na nossa cara de que temos governantes incompetentes. E que essa incompetência perdura por anos à fio. Uma prova inequívoca que favelas não são importantes para a sociedade e que aceitamos calados que a barbárie do tráfico de drogas assumisse proporções épicas.
É uma prova cabal de que uma cidade pode se tornar decadente mesmo tendo sido a capital do Brasil. Nosso maior cartão postal.
Aos poucos, permitimos que cada morro tivesse sua Mafia particular.
E assim foi.
O morro pressionando a classe média. Empurrando a classe alta para dentro do mar, como um tsunami ao contrário.
Do Rio, saíram empresas, fugiram talentos, emigraram profissionais e se estabeleceu a dualidade: ou você é bandido, ou é vítima.
Uma guerra civil silenciosa, não admitida, que acontece todos os dias há algumas dezena de anos.
Tudo isso para dizer que hoje, ouvi a apresentação da Human Rights Watch que após profundo estudo, afirmou que a polícia do Rio mata demais.
Eu não sou especialista em nada, mas fico me perguntando, quais os critérios para essa constatação.
Ouvi que fizeram uma comparação com São Paulo, como se fosse possível comparar as duas situações.
O Rio está vivendo uma situação de exceção.
É definitivamente uma guerra civil. Contabilizando perdas de ambos os lados, são mais vítimas fatais por ano do que em guerras do Oriente Médio.
Muitas vezes os traficantes estão melhor armados para combater policiais que nem sempre foram treinados para confrontos como esse.
E não há Convenção de Genebra. É cada um por si e as granadas por todos.
Comparar essa situação especial, comparar essa polícia do Rio [que obviamente também tem suas falhas, vergonhas e vícios] com a de outras cidades, é injusto. Contabilizar as mortes só de um dos lados, só do lado dos traficantes não é honesto com quem coloca a vida para pacificar uma cidade e ingênuo para uma organização que deveria ser comprometida com a realidade histórica.

Escrevi um tempo atrás sobre Whatever Works. Hoje assisti novamente. Pela terceira vez. Não vou ficar insistindo em como é bom. Mas vou transcrever aqui o monólogo inicial, que sozinho, vale o ingresso:


Why would you wanna hear my story?
Do we know each other?
Do we like each other?
Let me tell you right off, ok?
I’m not a likable guy.
Charm has never been a priority with me.
And just so you know, this is not the fell good movie of the year.
So if you are one of those idiots who needs to fell good, go get yourself a foot massage.
What the hell does it all mean anyhow?
Nothing.
Zero.
Zilch.
Nothing comes to anything.
And yet, there’s no shortage of idiots to babble.
Not me.
I have a vision.
I’m discussing you.
Your friends.
Your coworkers.
Your newspapers.
The TV.
Everybody’s happy to talk.
Full of misinformation.
Morality, science, religion, politics, sports, love, your portfolio, your children, health.
Christ, if I have to eat nine servings of fruits and vegetables a day to live, I don’t wanna live.
I hate goddamn fruits and vegetables.
And your omega 3’s, and the treadmill, and the cardiogram, and the mammogram, and the pelvic sonogram, and oh my god the-the-the colonoscopy, and with it all the day still comes where they put you in a box, and its on to the next generation of idiots, who’ll also tell you all about life and define for you what’s appropriate.
My father committed suicide because the morning newspapers depressed him.
And could you blame him?
With the horror, and corruption, and ignorance, and poverty, and genocide, and AIDS, and global warming, and terrorism, and-and the family value morons, and the gun morons.
“The horror,” Kurtz said at the end of Heart of Darkness, “the horror.”
Lucky Kurtz didn’t have the Times delivered in the jungle.
Ugh… then he’d see some horror.
But what do you do?
You read about some massacre in Darfur or some school bus gets blown up, and you go “Oh my God, the horror,” and then you turn the page and finish your eggs from-from the free range chickens.
Because what can you do.
It’s overwhelming! I tried to commit suicide myself.
Obviously, it didn’t work out.
But why-why do you even want to hear about all this?
Christ, you got your own problems.
I’m sure your all obsessed with any number of sad little hopes and dreams.
Your predictably unsatisfying love lives, your failed business ventures.
“Oh, if only I’d bought that stock!
If only I-if only I purchased that house years ago!
If only I’d made a move on that woman.”
If this, if that.
You know what?
Gimmie a break with your could have’s and should have’s.
Like my mother used to say, “If my grandmother had wheels, she’d be a trolley car.”
My mother didn’t have wheels.
She had varicose veins.
Still, the woman gave birth to a brilliant mind.
I was considered for a Nobel Prize in physics… I didn’t get it.
But, you know, its all politics.
It’s like every other phony honor.
Incidentally, don’t think I’m-I’m bitter because of some personal setback.
By the standards of a mindless, barbaric civilization, I’ve been pretty lucky.
I was married to a beautiful woman who had family money.
For years we lived on Beekman Place.
I taught at Columbia.
String theory.

Eu já devo ter falado boa parte do que vou dizer aqui para ele mesmo.
Mas como estou ficando velho e esqueço boa parte do que digo, além de ser contraditório por natureza, vou repetir sob o risco de parecer enfadonho ou de discordar de mim mesmo.
Lembro do dia que o garoto me mostrou o portfolio pela primeira vez.
A capa era dura e os trabalhos pequenos no formato, delicados, acho que um por página, muito bem descritos.
Um cuidado profundo com a apresentação.
Pela grossura do livro e considerando a idade do autor, imaginei duas possibilidades: ou o trabalho não manteria o nível até o final, ou tratava-se de um dos inúmeros assistentes de diretores de arte que usam trabalhos de gente mais experiente para dar volume a seus portfolios iniciantes.
A primeira suspeita desapareceu depois de ver o livro todo.
A segunda foi desaparecendo ao longo do tempo, com trabalhos saíam em série e com qualidade.
A arrogância natural de quem tem talento mas ainda não foi reconhecido, levou mais tempo para se dissipar.
Mas sumiu ao mesmo tempo que outras responsabilidades se acumularam.
Comigo, nunca aprendeu nada.
E não estou sendo modesto.
Sempre foi um diretor de arte melhor.
Mas me identifiquei com sua garra e com o fato de sermos ambos filhos únicos.
Faz diferença ser filho único numa profissão cuja avaliação é tão subjetiva.
Aprendi há pouco tempo que faz diferença não ter sido criticado por irmãos mais velhos ou ter brigado com mais novos, numa profissão em que você está em eterno escrutínio.
Falta a nós, os filhos únicos essa perspicácia.
Mas essa é outra história.
O fato é que tinha [tenho] identidade com seu estilo.
O tempo passou lento para todos nós.
Mais lento ainda para ele, job após job.
Tinha uma frase na minha sala antiga, que talvez ele tenha lido, em inglês dizia algo como “a gente está sempre esperando aquele momento que vai mudar a nossa vida para sempre”.
E seu momento finalmente chegou.
Um cliente finalmente disse o sim esperado há anos.
Mais um ano de árduo trabalho depois, a campanha saiu, se consagrou e o consagrou.
Certos reconhecimentos, certos prêmios, fazem com que o mercado passe a confiar em tudo que você diz, mesmo que você diga as mesmas coisas que dizia antes.
E mais uma verdade, hoje, se comprovou.
O tempo passou devagar para ele.
E essa notícia me encheu de orgulho.
Porque eu sei, acredite, o que ela representa.
Este não é um texto para dar esta notícia.
Quem importa saber, já sabe.
Ainda não está sequer confirmada.
Mas já é, sem dúvida, o maior marco em sua carreira.
Parabéns.
É uma honra dividir esses anos, que passam tão lentos, com você.

Enquanto escrevo este texto, assisto o 14º episódio da terceira temporada de Mad Men.

Consigo entender que para muita gente, seja entretenimento de segunda categoria.
Não vou tentar convencer ninguém que o roteiro é impecável, ou que a direção de arte superba.
Na verdade, não estou escrevendo este texto para falar sobre a série ou sobre o episódio.
Estou escrevendo sobre as memórias que o episódio me trouxeram.

Spoiler alert: neste episódio, a McCann Erickson compra a Sterling Cooper, agência de Donald Draper. E num motim, o pessoal chave da agência decide demitir-se e abrir uma nova agência.

As semelhanças com nossa história na Bullet são inevitáveis. Aí me dei conta que nunca escrevi sobre essa, que foi uma das mais intensas experiências da minha vida. E como isso aqui é um diário, num repente de confissão, decidi colocar no papel como tudo aconteceu.
Espero com isso não estar rompendo nenhum “non disclosure agreement” dos tantos que assinamos.

Nem a paciência dos meus poucos leitores. Afinal, vocês tem sempre a opção de pular o post. Escrevo para mim. Para deixar registrado.

Então vamos lá.

Em 2000 o mercado de aquisições de agências estava aquecido.
Os grandes grupos já haviam comprado empresas de telemarketing, empresas de marketing direto, online e haviam finalmente chegado às agências de Promoção.
Como a Bullet sempre foi uma referência neste setor, modéstia à parte, já havíamos recebido algumas propostas, entre elas do grupo Euro e da JWT. Mas quando a McCann resolveu se reunir conosco, percebemos que a venda era inevitável. A McCann, na época era a maior agência do país havia mais de 8 anos.

E se iríamos vender para alguém, eles eram o nome.
Ingênuos, nós, os cinco sócios da agência, nos sentamos na sala de reuniões para decidir quanto valia a agência. E utilizamos para isso um método científico: cada sócio anotou num pedacinho de papel quanto queria ganhar com o negócio. Somamos os valores e chegamos ao preço final.

Na época a McCann achou um absurdo, uma exorbitância. Para começo de conversa, queriam que dois sócios saíssem, o que realmente aconteceu. De nosso lado, também batemos o pé: não queríamos nenhum compromisso com o faturamento futuro. Queríamos pagamento em cash. E queríamos o direito de concorrer com qualquer outra agência da McCann na infinidade de concorrências que existem no mercado de Promo.

Como é bom não necessitar vender. Você pode exigir o que quiser.

A princípio, nenhuma dessas condições foi aceita. Mas a custa de intermináveis reuniões, a McCann foi cedendo. A última condição, a da livre concorrência, foi decidida em uma reunião em Nova Iorque. Estávamos Fernando e eu, lá. Na sede de uma das mais importantes agências da história, para impor nossa condição.

E aceitaram.

Como em Mad Men, o negócio foi fechado próximo ao Natal de 2000. Depois de pelo menos dez meses de negociações.
O volume de dinheiro envolvido, para nossa modesta receita, era enorme. Exatamente o que queríamos desde a primeira reunião.

Não vou contar o que aconteceu nos cinco anos que estivemos juntos. Cada um dos envolvidos deve ter sua versão. É sempre assim. Só digo que para mim, não foi nada bom.

O fato é que em 2006 decidimos comprar a agência de volta, o que parecia ser impossível.

Desta vez, muito menos ingênuos, contamos com um escritório de Merges & Acquisitions abolutamente impecável: o Linklaters.

Com enorme competência, em poucas reuniões, estávamos diante de um representante americano para discutir os termos da venda da agência.

Um negociador novaiorquino. Um judeu baixinho, parecido com o Woody Allen.

A certa altura, eu que não tenho muita paciência, me exaltei. Woody Allen pediu uma pausa para o café. Me chamou num canto e disse com calma:

- Neto, você não precisa se exaltar. Você só vai sair dessa sala quando estiver absolutamente satisfeito. Você tem filhos?

- Tenho 3.

- Me mostra uma foto.

Mostrei.

Ele sacou da carteira uma foto de seus dois filhos com uniformes de Yale.

Olhou pra mim e disse:

- Não é isso que realmente importa?

Fiquei olhando pra ele sem entender o que ele queria dizer. Mas ele cumpriu sua palavra e a verdade é que a recompra foi o melhor negócio que fizemos na vida.

Nunca mais o vi.

Sei porque tudo foi tão fácil para a recompra e não foi apenas pela vontade do Woody Allen, mas não vale a pena explicar.

O fato é que nossa saída do grupo McCann foi absolutamente tranquila e muito se deve à maturidade desse sujeito.

Hoje crescemos mais de 130% em 3 anos e toda essa experiência fez de todos nós profissionais melhores.

É isso.

O seriado pode ser só um enlatado.

Mas não é exatamente porque imita a vida que esses seriados são sucesso?

Eu sempre tive muita sorte com essa história de violência, de assaltos, de sequestros.
Já vi acontecer em volta, com amigos próximos, mas nunca comigo.
Uma vez escrevi um texto que, basicamente, perguntava quando toda essa violência vai nos alcançar.
Porque violência para mim, é como uma inundação…vai ocupando os espaços vazios e quando não tem mais para onde ir, começa a subir. Não adianta você subir nos móveis. Uma hora ela alcança você.
Pois bem.
Ontem eu fiz o que deve ter sido a coisa mais próxima de tomar um tiro na cara.
Estava descendo, de carro, a rua de casa e tive que passar entre duas caçambas, no mesmo momento que uma moto vinha subindo.
O certo era que eu desse passagem. Mas não dei. Errei.
Não batemos, mas o espaço ficou apertado para ambos.
De passagem, o motorista da moto deu um soco retrovisor do meu carro.
Típico gesto que muita gente já deve ter visto. Sinceramente, sou desses caras que – no trânsito – chega pro lado para as motos passarem.
Mas ontem errei.
E o sujeito quebrou meu espelho.
O que eu deveria fazer?
Ir embora, deixar barato. Mas olhei pelo retrovisor interno e vi que o sujeito parou, uns 50 metros depois de nosso encontro.
Como num daqueles duelos medievais, onde os cavalos se cruzam e voltam-se para o novo ataque, parei o carro e fiz o que qualquer ser humano de bom senso me aconselharia a não fazer: manobrei o carro e voltei para tirar satisfação.
Desci do carro enquanto o sujeito tirava o capacete.
Pausa para que eu explique um detalhe: eu estava vestindo uma bermuda larga, sem cinto, dessas que obriga um gordo como eu a encher a pança ainda mais para evitar que ela escorregue pelas pernas, o que numa situação em que estávamos tentando decidir quem era o macho alfa, seria bastante humilhante. Meu celular estava no bolso direito, então eu aproveitava para – com a mão direita no bolso, segurá-lo para ajudar a impedir que a bermuda escorregasse.
Nesse momento, uma Caravan 85, verde musgo, entra em cena, ao nosso lado.
O motoqueiro e eu discutíamos, cada um certo de que estava coberto de razão.
Da Caravan desce um raro exemplar de homo erectus com 1,90m e 250 quilos. Dava pra ver que ele não era um sujeito razoável. E era amigo do motoqueiro, que por sua vez, parou de falar comigo e passou a falar com seu padrinho de duelo.
O gordo não tirava os olhos da minha mão no bolso, enquanto ouvia a história.
Quando o sujeito da moto terminou sua grosseira e tendenciosa explicação, o gordo emitiu seu primeiro grunhido, ainda olhando pra minha mão no bolso:
“Cê tem revolve aí playboy?”
Só então percebi mais essa besteira.
Tirei a mão do bolso:
“Claro que não porra! É um celular” – a calça escorregou ligeiramente, inflei mais a barriga.
Talvez comovido com minha sinceridade, o Sasquatch abraçou o amigo da moto e disse:
“Deixa quieto Juneca…vam’bora”
Protegido pelo amigo, Juneca ficou ainda mais agressivo.
Mas por alguma razão que eu não entendi, todos viraram de costas e foram embora, sem antes gritarem: “Playbozinho!”
Voltei para o carro, olhei o espelho.
Olhei pro meu rosto no espelho.
Senti uma mistura de vergonha com, finalmente, medo.
Nessa hora o revolver no meu bolso tocou.
E era minha filha.
Fica aqui meu agradecimento para o gordo horrendo e ignorante que foi a única pessoa com bom senso, em toda essa história.

Eu assisti todos os filmes de Woody Allen.
Todos.
Não to me gabando. É só mais uma manifestação do meu T.O.C.
Assisti dos mais famosos até os mais obscuros.
Desde os bossais dessa nova geração, como Match Point e Scoop. até clássicos como What’s Up Tiger Lilly.
Falei bossais, mas não são ruins. Todos são bons, exceto talvez o pretensioso Interiors, com sua chatice Ingmar Bergman.
Meu deus. O que estou falando? Quem sou eu para criticar Woody Allen?
Enfim, tenho minha lista pessoal de filmes preferidos. Não foi feita por nenhum critério cinematográfico. Não sou crítico de cinema. Não assisto aos filmes dele porque ele é um bom diretor ou coisa do gênero.
Alias, sou fanboy de Woody Allen porque são um manual de instrução sobre a vida.
Principalmente os mais antigos, como [o melhor de todos] Annie Hall ou Manhattan.
De alguns anos para cá, no entanto, seus filmes ficaram diferentes.
Não pioraram, nem melhoraram.
Apenas mudaram.
Como uma espécie de crise da meia idade, onde Woody Allen tentou ser jovem de novo, moderno, trabalhar com atrizes famosas, novas locações, novas mensagens. E como toda crise de meia idade, o resultado foi superficial, sem muita importância no todo.
Agora, quase como se um ciclo se fechasse, Whatever Works seu mais recente filme, traz de volta o mesmo Woody Allen de 1986/87.
O mesmo de Hannah and her Sister e de Radio Days.
Da mesma forma que em Annie Hall, o filme é repleto de sarcasmo e atitudes pessimistas, que na verdade, são só uma fachada para o que realmente importa. Para a mensagem, que claro, deixo para quem quiser assistir, apesar do título já entregar tudo.
Whatever Works não é o melhor filme de Woody Allen. Mas definitivamente é um alento para os que achavam que ele tinha feito uma plástica e apagado as marcas do seu passado.
Relaxem.
Era só botox.

E com esse filme, mudo um pouco minha lista dos melhores Woody Allen.

- Annie Hall
- Hannah and her Sisters
- Radio Days
- Crimes and Misdemeanors
- Manhattan
- Whatever Works
- Stardust Memories
- Zelig
- Husbands and Wives
- Broadway Danny Rose