Aqui, vivemos um novo reinado.
Por favor, não culpe os Digitais.
Nessa terra, cada um tem sua culpa, não só os cibernéticos.
Da imprensa que continua endeuzando os mesmos nomes que partiram deste reino por perceberem que aqui Criatividade é luxo aos diretores de criação passivo-agressivos que sabem que no final, o que lhes garante a cabeça é um Rei sorridente.
Se somos moderninhos ao dizer que não existe mais nem on, nem offline, como acontece em toda palestra que assisto (ah…e como somos bons de palestra), agora não venham dizer que fomos mal em online.
Fomos mal em muito mais do que apenas online.
Em Rádio voltamos com apenas três. Em Promo, com dois. Em PR com dois.
Para nosso Rei, bacalhau basta.
E quem ousa além da propaganda está encolhido, roendo pés de mesa para agarrar as migalhas que caírem.
O Rei quer o voto do povo na forma de views e likes em profusão, mas é só isso, não se engane.
Essa é a terra da Banda Mais Bonita da Cidade que, ao que parece, basta.
Se formos meramente populares, já está bom para o nosso Rei.
Nosso Rei teme que sejamos arriscados demais, corajosos demais e mal entendidos demais.
Nosso Rei acertou os termos de seu dote.
Balança sacos de ouro para quem lhe entregar o estável.
Não estamos em crise, assim, não nos cobra criatividade.
Na fartura em que vivemos hoje, o Rei não pede por mais arrojo.
Pede por follow-ups.
Clama por check-lists.
Uns poucos ainda insistem no trabalho que vale leões, mas o fazem por diletantismo, ou para se manterem fiéis a suas histórias.
Explicar é o novo Criar.
Um bom gráfico resolve mais que um bom grafismo.
Não é justo criticar aqueles que continuam insistindo em mudar o curso do reinado.
Durante todo o ano, esqueceremos desta semana de Cannes e mergulharemos nossos narizes em planilhas de excel para brigar por sobrevivência.
Quando nos encontrarmos por aí, não lembraremos de Cannes.
Tentando garantir as verbas sagradas a custa de resultados não arriscados seremos todos cúmplices de Power Points (que os arrojados trocarão por Keynotes).
Reclamar para que?
Mercados estão aquecidos, teremos anos de prosperidade pela frente, não é mesmo?
Alguns dirão que nosso povo é burro, que não entende as sutilezas do online, então não dá para ganhar prêmios como os inteligentes estrangeiros.
Outros dirão que nossa banda não é larga o bastante para conter nossas idéias.
Até o momento da definição dos jurados do próximo ano, estaremos orientados a servir nosso Rei como ele nos permitir.
Um Rei bastardo, que roubou o trono da Criatividade com nossas bençãos.
Não vamos reclamar.
Somos todos cúmplices.
E este Cannes será lembrado como aquele em que detonamos a Argentina no Beach Soccer.
(sobe risada da claque gravada)

Isto não é um post. É uma reflexão.
Em se tratando de propaganda de cerveja, nesse país, uma coisa parece que não mudou: tem que ter loira sensual (se deu bem, hein Sandy?)
De Paris a Tchecas, loiras ainda vendem geladas.
Até mesmo a Sandy.
Mas essa é uma das únicas características que ficou de pé na Propaganda dessa categoria de produtos.
O resto da receita mudou. Musiquinha, degustação, bordão, caiu tudo por terra.
Cerveja nos últimos anos, tornou-se um dos melhores exemplos de para onde caminha a “nova” comunicação e, de quebra, sinaliza um jeito brasileiro de fazer propaganda moderna.
Um jeito nada a ver com os filmes mirabolantes e argentinamente criativos de desodorantes, por exemplo.
Quer a gente queira quer não, a nossa malandragem (no bom sentido, se é que existe), está virando marca registrada da propaganda dessa categoria.
Começou lá atrás com a virada de casaca do Zeca Pagodinho, the new Gerson, lembram?
Um fato gerado pela propaganda, que rendeu muito mais GRPs do que pagaram.
De lá pra cá ficou claro que (em tempos de redes sociais) um factóide vale mais do que mil fatos.
Se a gente procurar, vai encontrar ótimos exemplos recentes.
O lançamento de Devassa com a Paris Hilton.
Uma cerveja chamada Devassa (lembram que buzz?) que traz uma devassa – ao menos no imaginário masculino. Toca todo mundo falar da Paris Hilton.
Missão cumprida. Produto divulgado, custos de mídia reduzidos.
Vem o segundo ano. Quem será a devassa da vez? Sandy.
Mas Sandy não é devassa.
Então.
Toca nego discutindo se a moça é ou não devassa. Mais uma vez, missão cumprida, custos de midia lá para baixo.
Agora, Proibida nos brinda com o polêmico caso das Tchecas em Pânico, já desembrulhadinho pelo Daniel e pelo Felipe nos posts abaixo.
Tudo muito esperto, instigante e eficiente.
Tão novo que chega a ser polêmico.
Por isso e  já que esta é uma reflexão e não um post, vale lembrar que o legal não é “enganar” ninguém.
Nem mídia, nem concorrentes, muito menos consumidores.
Para jornalistas, o Pânico ou a Skol terem sido enganados pode ser o fato relevante.
Para nós, publicitários, o que importa é que – de novo – o produto foi bem divulgado por custos muito mais eficientes.
Não sei nem se aquela gente diferenciada de Cannes entende o que esses cases significam para um mercado que até outro dia, precisava beijar os pés de uma certa emissora.
Mas, afinal, quem se importa com Cannes?
Parabéns aos clientes que toparam (e neste novo modelo, apostaram e colaboraram).
Parabéns ao Aaron e à equipe da Mood pelo case de Devassa.
Parabéns ao Jader e à equipe da W2 por Proibida: Mário Lins, Thiago Elias, Lucas Afonso.

Depois de assistir Rio, como boa parte dos comentários que li, também saí com a sensação de que o filme está repleto de estereótipos.
Levei alguns dias para perceber que esta foi apenas uma constatação, não necessariamente uma crítica.
O Rio de Janeiro se presta mesmo aos estereótipos.
Talvez seja por sua beleza natural que acaba funcionando como receita de sucesso para determinados personagens recorrentes.
O traficante, o favelado, o filhinho de papai drogado, o surfista, a gostosa da praia, o sambista malandro, o passista, a mulata porta-bandeira e por aí vai.
O Rio já vem com um kit de personagens acompanhando o cenário.
Difícil escapar.
Algumas localidades tem essa característica.
O italiano mafioso, o grego pescador, o russo assassino etc.
Cidades como Tokio, Nova Iorque e até São Paulo são mais versáteis para contar histórias específicas, talvez porque – apesar de também terem seus padrões – sua amplitude e falta de personalidade acaba por permitir maior especificidade aos personagens.
Na verdade, dizer que uma história tem personagens clichê, estereotipados, não é – necessariamente – uma critica.
O judeu perdedor de Woody Allen está aí para provar.
O que incomoda em Rio não são os estereótipos.
O que incomoda é a constatação de que o que nos restou foram, de novo, os estereótipos do tráfico (de aves para não dizer de drogas).
O que incomoda é a dura constatação que o filme seria muito mais lindo se fosse tão singelo quanto o que imaginamos antes dele começar, com nossos próprios estereótipos e clichês particulares.

Não, não…vou te contar.
Não dá mais para saber o que é coisa de homem e o que é coisa de mulher hoje em dia.

Congela o gesto e fica olhando para mim.

É ou não é?

Sem se mover por uns segundos.
Lambe as pontas dos dedos enquanto tenta esfriar o café.

Porque, filho, essa história de bicha sempre teve, viu?
Essa gente fala que é de agora, mas não é.
Eu lembro de quando eu era menino.
Tinha lá os bicha. Todo mundo sabia que era.
Agora, antigamente a gente sabia quem era o que, entende?
As coisas, sabe, eram mais certas.
Coisa de homem, coisa de mulher.
Revista, por exemplo.
Outro dia passei na banca e tive a pachorra de olhar tudo.

Faz um gesto com o indicador

Não tem mais revista de homem.
Acabou.
Tem de notícia.
Tem de mulher pelada.
E tem essas agora que tem uns musculoso na capa…essas revistas de como se vestir bem, de moda de homem, essas coisas de bicha.
Mas de homem mesmo, não tem mais.
Mecânica Popular, por exemplo, não tem.
Aquilo, sim, era revista de homem.
Ensinava como arrumar coisas no carro, na casa.
Mantinha a pessoa ocupada.

Continua brincando com o açúcar na xícara de café.

Outra coisa.
Televisão.
Programa de domingo na televisão, antigamente, era coisa de mulher.
Agora, quem sabe?
Fica lá aquelas mulher dançando de biquininho.
Aquilo é coisa de mulher? Não é, né?
E que homem fica no domingo a tarde vendo as mulher dançar na televisão?
Até a Hebe agora pegou essa mania de dar beijinho em todo mundo. Homem, mulher, velho, criança.
Isso confunde as pessoas.

Dá o primeiro gole no café e aproveito para me despedir com um gesto.

Não quer ficar mesmo?
Vai fazer o que?
Vai para casa ver televisão, né?

Trabalhei com um biólogo um tempo, um chileno refugiado do Pinochet.
Era Diretor de Arte porque poderia chamar a atenção se continuasse no seu antigo ofício.
Ah…nada como o início dos anos 80 para um saudável intercâmbio de esquerdistas latinos, comunistas comedores de criancinhas.
Naquele tempo, depois do trabalho eu ia de ônibus para o cursinho.
Certo dia fiquei olhando para uma mulher sentada numa das primeiras filas, por quase todo trajeto.
Era branca, ou parda – como passamos a conhecer os nossos miscigenados achando que assim soaríamos menos preconceituosos.
Tinha os traços quase masculinos.
O queixo marcado, o pescoço musculoso.
Suas mãos eram magras, sem gordura, ossos à mostra.
Fiquei pensando nas gerações e gerações de trabalhadores sofridos que deram origem àquela mulher.
Fiquei pensando se – nas poucas gerações que cabem dentro da História do Brasil – já teria sido possível para a Evolução fazer seu trabalho e, assim, já haveriam surgido os filhos da elite e os filhos do trabalho não só socialmente, mas também geneticamente.
No dia seguinte, perguntei ao biólogo chileno:

“Alfonso…você acha possível que o Brasil já tenha desenvolvido uma sub-raça?”
“Hola?”
“É…uma sub-raça…uma sub-espécie de seres humanos filtrados por suas características propícias ao trabalho braçal…na lavoura, nas cidades, nos portos, entende?”
“Nito…como voy a decir…” – pensou o chileno coçando o cavanhaque e olhando para o teto.
Era evidente que ele também já havia pensado no assunto.
“El problema és que você tien solo vinte años…entonces tudo bien…”
Pausa.
“Si você tuvesse um pouquiño mais, eu diria que você é um idiota como Hittler.”

E nunca mais falamos sobre o assunto.
Pensei muito sobre sua reação.
Aquele chileno que havia largado tudo, sua família, seu país, sua profissão. Tudo em função de sua ideologia política baseada na ideia [equivocada ou não] de que é possível existir uma sociedade mais igualitária, questionado por um brasileiro naive, branco, burguês, despreparado a ponto de sequer merecer uma resposta.
Falei com o biólogo, respondeu o comunista.
Como é que pude sugerir que exista alguma, mesmo que mínima, diferença genética que predefina qualquer diferença na condição social dos seres humanos?
Já não bastava os capitalistas, pensou Alfonso, justificarem o racismo através da livre-empresa, agora terei que aturar neo-nazistas inconscientes.
Minha pergunta, como Alfonso me fez perceber por sua não-resposta, foi muito além de simples preconceito.

Preconceito é acreditar que realmente existe uma pré-disposição genética para a condição social.
Fascismo é acreditar que essa diferença gere novas gerações de cidadãos inferiores.

Preconceito e fascismo moram um ao lado do outro, na mesma rua.
O primeiro não é aprendido.
É ingerido.
Assimilado por osmose.
E se não houver educação, se transforma no segundo.

Quer você, o Alfonso, o Bolsonaro ou eu queiramos, as favelas, os garotos no sinal, o Jornal Nacional, os jornais impressos, a cracolândia, enfim, o que lemos, vimos e ouvimos cria nossas percepções irracionais.
Sem querer, a gente da uma nota de desconfiança, de medo, de insegurança para cada um que passa diante dos nossos olhos.
E essa avaliação as vezes escapa ao nosso controle racional.
Crianças expõe mais facilmente essas distorções [que as vezes só são preconceitos em nossas cabeças adultas].
Lembro de uma das minhas filhas perguntando para um negro se “todos em sua casa tinham a pele daquela cor”.
A pergunta, para alguém de sete anos, estava longe de ser preconceituosa.
Era só a curiosidade diante do diferente.
Era mesmo?
Afinal, lembre-se:
Se você tivesse uns anos a mais, seria um idiota como Hittler.

Ela nunca conheceu o vice-presidente.
Com ele, dividia só o fato de ser mineira.
Na verdade era pernambucana, mas estava já há tantos anos em Belo Horizonte, que é como se fosse.
Não ligava para noticiários políticos.
Mesmo se ligasse, teria visto pouco sobre ele.
Veio do nada, trabalhou, enriqueceu, se elegeu vice, teve câncer e morreu.
Por algum motivo essa história das internações a comoveu.
Assim, como nunca havia feito, às 4 da manhã já estava na fila do velório.
Queria ver o corpo.
Queria ver os soldados, os tecidos, as roupas.
Ver o Lula e a Dilma de perto.
Ver a pele deles, o cabelo deles de perto.
Até o Aécio, que ela já tinha visto uma vez, queria ver de novo.
Sentir o cheiro das coroas de flores.
Para que não parecesse muito mórbido, se convenceu que tudo era a sua participação num momento histórico do país.
E ela testemunhou tudo.
Roubou um cravo, ao lado do caixão (precisava congelar esse momento histórico).
Foi entrevistada pelo Jornal Nacional (mostrou o cravo).
Falou que ele era um político honesto e um homem íntegro, desses que faltam na nossa política.
Talvez pela proximidade das câmeras, ou do jornalista que ela já tinha visto na TV, talvez pela emoção, ou só por nervosismo mesmo, começou a chorar.
Entre as lágrimas, disse que a luta dele tinha sido um exemplo e que não seria em vão (?).
Disse que o Brasil tinha muito que aprender com ele.
Que ele ia fazer muita falta.
Aí foram levando o caixão e ela teve que ficar para trás da cerca de proteção.
Mas o pessoal da Globo continuou filmando e ela percebeu a importância do momento.
Era sua responsabilidade ajudar a eternizar toda aquela emoção.
Então, destemida, subiu na grade aos prantos e gritou o mais alto que pode:
“Vai José de Alencar! Nós te amaremos para sempre!”
As cameras não registraram, mas um sujeito a seu lado falou baixinho:
“Não é ‘de Alencar’ é só ‘Alencar’”
“Oi?” – ela perguntou ainda gritando.
“José de Alencar é o escritor.”
Mas ela não escutou nada, tamanha a confusão.
A camera da Globo já tinha sido desligada e o jornalista corrido para outra posição.
Nessa noite o Jornal Nacional terminou com a sua imagem congelada na tela: braço erguido, cravo em punho, carro do corpo de bombeiros ao fundo e uma foto do vice com o texto sobreposto: “José Alencar 1931 – 2011″.
Seu grito “Vai José de Alencar!” foi ao ar assim mesmo, sem edição.
Só com um eco suave.

Conheci uma infinidade de porteiros na vida.
Porteiros me interessam pois detém o [pequeno] poder do ir e vir urbano.
Não me lembro de ter conhecido um único que não valesse uma boa prosa.
Então venho colecionando histórias minhas e de amigos, com esses personagens.
.

Uma das que mais gosto é de um porteiro em um edifício de Moema.
Arlindo gostava tanto de sua função que se apegava aos condôminos.
Se você pedisse uma pizza, por exemplo, ele anunciaria a chegada mais ou menos assim:
“Seu Claudio? A pizza chegou, viu? Mudou, né? Hoje é quatro queijos e Marguerita.”
É. Ele abria a pizza para ver o sabor.
Certa vez esse meu amigo que morava no prédio controlado por Arlindo viajou para a Europa e, de lá, mandava postais para suas filhas. Os postais, obviamente, passavam pelo escrutínio do porteiro.
Quando voltou, enquanto o ajudava a tirar as malas do táxi, Arlindo comentava:
“Gostou de Roma seu Claudio? Foi lá no Vaticano, né? Eu vi…e que coisa hein?! Assaltarem o senhor em Paris! Esse mundo eu não sei onde vai parar mesmo.”
.
Na adolescência convivi com outro porteiro inesquecível no prédio de uma namorada.
Esse não gostava de mim. E não gostava assim de graça mesmo. Desde a primeira noite.
Tentei todo tipo de assunto. Política, cotidiano, esportes.
Nada desarmava o sujeito.
Durante meses eu estacionava meu Gol em frente à portaria, descia e pedia para chamá-la.
Após algumas vezes, arrisquei de dentro do carro um sinal gentil, quase uma súplica, para que ele pedisse para a moça descer sem que eu tivesse que sair do carro.
Nunca.
Nem uma única vez ele atendeu ao meu gesto.
Ele não moveria um dedo se eu não cumprisse o ritual de desligar o motor, fechar o carro, subir as escadas até a guarita e solicitar:
“O senhor pode pedir para a Vera do 32 descer?”
“Pois não.”
Meses.
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Mas o porteiro mais importante da minha vida, foi o seu Sala.
Seu Sala era um gordo bonachão, trabalhava no prédio da minha avó, quando eu tinha uns 12 anos.
Samba Canção era o seu negócio.
Batucava na mesa de madeira com as mãos gordas e cantava as letras sem esquecer nenhum verso.
Conforme cantava, a saliva se acumulava nos cantos da boca.
Hoje me parece repugnante, mas na época lembro de ter associado sua farta salivação com o prazer que o homem tinha em cantar e batucar.
Se eu não tinha nada para fazer depois do jantar, descia na portaria e ficava vendo seu Sala batucar, cantar e salivar.
Aprendi uma infinidade de letras.
Muitas vezes, ele interrompia a cantoria para explicar o porquê de uma determinada passagem.
“Você entendeu porque a Amélia era A mulher de verdade?”
Pois bem.
Com o tempo seu Sala decidiu me apresentar algumas composições próprias.
Uma delas marcou em especial porque pude colaborar na composição da letra.
O samba chamava-se “Saúde” e era uma espécie de ode às frutas.
O ritmo sincopado criado pelo seu Sala e a letra combinavam bananas, morangos, mamão papaia, além das inevitáveis referências à Carmem Miranda e à infinita variedade de sabores exóticos nacionais.
Não lembro de detalhes, mas nunca esqueci da última estrofe, que ele trouxe criada após um feriado prolongado.

E tudo isso meu Brasil
sem nunca esquecer do limão
Amarelo, verde e anil
adiciona açúcar que fica tão bão.

Ele pode ver nos meus olhos a decepção.
“Não gostou, é?”
“Na verdade seu Sala…é que não rima”
“O que não rima?” – com a boca especialmente cheia de saliva.
“O último verso…é ‘bom‘ e não ‘bão‘. Então não rima”
“Como assim? É bão, ué. Limão, bão.”
Percebi que não ia adiantar discutir.
Apesar de ser uma enciclopédia de samba canção, seu Sala não conseguia ouvir a diferença fonética que inviabilizava a rima.
Num certo ponto da discussão, ele até tentou contemporizar:
“Bão, poxa…liberdade poética”.
E no “poética” fui atingido por um perdigoto.
Hoje, com a quantidade de sambas ruins que estão por aí, talvez eu fosse até menos implicante. Quem sabe?
Mas na época, com as referências que ele mesmo havia apresentado, Noel Rosa, Ary Barroso, Paulinho da Viola, Vinicius, meu grau de exigência era altíssimo.
Passei a frequentar a portaria cada vez menos.
O tempo passou e seu Sala arrumou outro emprego.
Mas o que mais me dói é que nosso samba ficou inacabado.
Pelo menos para mim.

Além de simplesmente conectar pessoas, as redes sociais estão sendo capazes de dar voz à massa. Um ser intangível que possui opinião própria. A voz do povo que nem sempre é a voz de deus.

O trend topic é a média da opinião do mundo online. Não é mais uma lista de assuntos. É uma entidade, um ser. Qual a consequência do Facebook ser um dos maiores países do mundo?

Evidente que as mídias tradicionais sempre tiveram essa capacidade de motivar mudanças através da divulgação dos fatos. Mas as redes sociais somaram a este poder de divulgação, a resposta da audiência. O Trend Topics é a voz calada de uma – cada vez maior – gigantesca audiência.

O que o Trendtópico fala, a mídia tradicional escuta e reverbera.

Veja o caso das ditaduras africanas. A reação do povo do Egito, foi clonada em alguns outros países próximos. Muito se falou sobre isso, e este fenômeno pode não ter sido consequência da voz das redes sociais, mas não há dúvida que devemos dar-lhe o devido crédito por colocar o que estava acontecendo no radar do mundo.

Do Egito até a Líbia. Do dia pra noite, o esquecido Kadafi, ditador há mais de 40 anos com uma infinidade de acusações de ações terroristas, muitas delas contra os E.U.A. transformou-se no vilão da vez. Da noite para o dia, ganhou as primeiras páginas dos jornais e fez com que os americanos se movimentassem para apoiar os rebeldes que querem derrubá-lo.

Quanto dessa movimentação tem a ver com os Trend Topics do twitter e likes do Facebook?

Quem estaria realmente preocupado com o futuro de Charlie Sheen se o poder de priorizar a informação continuasse apenas nas mãos dos jornalistas?

E as usinas nucleares? Depois da tragédia do Japão, diversos países decidiram alterar ou corrigir suas políticas nucleares em função do que ocorreu no Japão.

O mais recente exemplo é o que aconteceu com Maria Bethânia. De uma hora pra outra, a mulher que utilizou uma ferramenta conhecida para levantar patrocínio, se transformou num monstro que rouba o dinheiro do povo.

Não vou perder tempo explicando o caso nem discutindo se ela tem ou não razão.

Meu ponto é outro. Meu ponto é o poder que o Trendtópico tem de devastar um assunto ou uma pessoa partindo da opinião de milhões de ilustres desconhecidos.

É a vitória da Democracia, alguns dirão. Esse ser Trentópico só vai crescer e garantir que o povo seja ouvido. O problema é que o povo nem sempre tem razão. Há que se lembrar – ao menos de vez em quando – de Nelson Rodrigues, para quem toda unanimidade é burra.

Quartas feiras pela manhã são sempre assim: enquanto Eliza limpa o chão de casa com um pano embebido em algum líquido que não sei o nome, fico no computador, mexendo aqui e ali, como faço todos os dias.
Ela sempre tem uma história para contar. Começa sem que eu pergunte nada e muitas vezes parece não estar contando para mim e sim para o piso. Está apenas tirando a história de seu sistema. Algumas são desinteressantes, rotineiras, outras são comoventes, absurdas ou tristes.
Eliza nunca pede minha opinião nem faz perguntas.
Ou, se pergunta algo eu não respondo e ela não parece se importar.
Conta sua história do começo ao fim, sem que eu precise dizer nada.
Quando a história é interessante eu presto atenção, sem tirar os olhos da tela, mas quando não é não finjo interesse. Continuo com os olhos fixos na tela, mas confesso que nesses casos sua voz sempre monotona chega a me incomodar. Nunca reclamo, na esperança de que a história da semana que vem seja melhor.

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Eu conhecia o Jurandir desde os dezesseis anos.
Ele tinha um bar na minha rua e estava sempre na porta.
Era um bar desses que tem essas máquinas de jogar na frente.
Todo dia, quando eu ia pegar o ônibus eu dava uma palavrinha com ele.
‘Eita que o Santa Cruz acabou de passar!’ – ele dizia rindo.
Era casado e tinha um filhinho pequeno, mas andava com duas meninas lá do fim da rua.
Duas maloqueiras dessas, sabe como é? Deviam até usar drogas.
Eu falava pra ele ‘Jurandir, toma cuidado…essas meninas podem até te passar essas doença’.
Mas ele não ligava, mulherengo desde moleque.
‘Se eu pegar doença, eu me mato.’ – e ria.
Eu fazia uma careta e ia embora.
Safado.
Noutro dia eu dizia ‘Jurandir…um dia essas maloqueira aparecem grávida, aí que eu quero ver.’
‘Se aparecer, eu me mato.’
Ontem, quando eu fui trabalhar a porta do bar estava fechada.
Diz que as duas maloqueiras ficaram batendo na porta pra ele abrir e nada.
Quando abriram ele estava lá no fundo.
Tinha até esticado um plástico no chão e estava deitado com a boca espumando.
Tomou aquele chumbinho de matar rato, sabe qual é? Não sei o nome.
Do lado dele tinha um copo com cheiro de conhaque.
Uma cunhada minha se matou com ácido, mas diz que é a mesma coisa esse chumbinho com conhaque.
Come tudo por dentro.
Não adianta nem fazer lavagem ‘estomagal’.
O resgate levou mais de quarenta minutos para chegar.
Pra mim que ele pegou AIDS dessas meninas.
Só pode ser né?
Se fosse filho ele escondia de todo mundo e pagava um dinheiro pra ela…não precisava se matar.
Agora ninguém vai saber o que foi.
Só ele e deus.”

Pausa.

O senhor quer um suco de abacaxi?

O estrago está feito, que parte você não entendeu?

Não há nada de novo.
Não foi um site, um blog, um twit ou um post qualquer.
O estrago já estava feito há muito tempo.
Cada clique no botão download, cada clique no send, ajudou a desconstruir mais uma fronteira.
Aos poucos rompemos quase todos os limites.
Os geográficos, os da propriedade, os da legalidade e finalmente os do próprio indivíduo.

Quer ver?

Você baixa músicas.
Você baixa software.
Você baixa filmes.
Você distribui, você recebe.
Ninguém é dono de nada.
Chamamos para nós a propriedade intelectual dos outros.
Você entra na rede da firma e puxa da máquina de um colega toda a obra dos Beatles.
Pronto.
É sua.
Em nome dessa pretensa democracia, distribuímos o trabalho alheio como se fosse nosso.
A isso demos o nome de “compartilhamento”.

Diante do seu computador, você é quem manda.
Os únicos limites são aqueles que você definir.
E se você decidir que não há limite nenhum, então você pode tudo.
O que é muito prático, já que tudo é feito para cortar e colar.
Tudo pode ser editado.
Você agarra um domínio daqui, cria um site dali, aplica um tema de lá e voilà.
A você foi dado o direito de recolher toda a informação, analisar, unir, separar, concluir e tornar disponível.
Qualquer um pode fazer o mesmo.
Esticar, alterar, modificar, usurpar e espalhar o que era seu.
Fizemos com a informação o mesmo que fizemos com a propriedade intelectual.
A isso demos o nome de “conteúdo gerado pelo usuário”.

Você diz o que acha.
Você julga.
Você clica dizendo se gostou ou não.
Você “posta”.
Você discute, você afirma, você publica.
Sua opinião é sempre importante.
Tão importante como a de qualquer outro.
Alguém escreve um texto.
Logo abaixo, uma infinidade de comentários.
Todos têm o mesmo valor.
Não existem mais especialistas.
Quem decide o que é certo é o número de cliques.
O número de likes.
O número de ocorrências no Google.
Fizemos com a opinião, o mesmo que fizemos com a informação e com a propriedade intelectual.
A isso demos o nome de “web 2.0″

Seu irmão aposta nos cavalos, no futebol, no basquete, numa casa de jogos em Londres.
No apartamento ao lado mora um pedófilo.
Em algum ponto da cidade tem um sujeito roubando informações dos bancos.
O controle sobre o que se compartilha é mínimo.
Não existe limite sobre o conteúdo gerado.
Que mal há?
Afinal, ninguém mais é dono de nada.
Artistas não possuem suas músicas.
Diretores não possuem seus filmes.
Nem você é mais dono de suas próprias conquistas, méritos ou falhas.
Está tudo aí para ser compartilhado, divulgado ou julgado publicamente.
Sua vida, Creative Commons.

O grande vencedor do power to the people foi o anônimo.

Essa semana, durante algumas horas, um site permitia que qualquer um, anonimamente, desse sua opinião sobre diversos profissionais.

Não importa de quem eram as opiniões.
Eram só textos na maioria ofensivos, escritos sabe deus lá por quem.
Um, dois, cinquenta, centenas de anônimos. Que diferença faz?

Também não importa quem eram os profissionais atacados.
Eram só fotos, uma após a outra, com um nome embaixo.
Nessa nova ética, não há como se defender.
Nada do que você disser será usado a seu favor.
E, na verdade, não importa,
porque amanhã ninguém lembra mais o que se falou de quem.

Essa semana foram publicitários.
Na semana que vem podem ser professores de uma escola pública.
Ou jogadores de futebol.
Ou políticos.

Mais triste do que ser ofendido por desconhecidos é se dar conta de que a sua opinião, aquela que você achou que era importante, tem o mesmo valor do que uma calunia escrita por um anônimo.

E ainda há quem diga que atitudes como essa são positivas e democráticas.

O maior estrago é esse: sua opinião não vale nada.