Eu gosto de House.
Assisti a quase todos os episódios, de todas as temporadas.
Se você nunca viu, vou contar todos eles, assim você pode partir logo para outra série. Todos os episódios são basicamente assim:
Abre com duas ou três pessoas fazendo algo cotidiano, porém curioso.
Digamos, dois desses limpadores de janela de prédio. Esses que ficam pendurados do lado de fora, fazendo rapel em arranha-céus.
Enquanto os dois trabalham, são observados pela janela por um executivo de terno.
A cena é montada de maneira a induzir você a pensar que um dos limpadores de janela terá um problema qualquer, afinal, é o esperado por sua profissão de risco.
Nunca é o que acontece.
Ao invés disso, os olhos do executivo começam a sangrar.
Pingos de sangue na gravata italiana do sujeito.
Ele desmaia enquanto um dos lavadores de janela liga para 911.
Está apresentado o caso clínico do episódio.
Corta.
Corte transversal de um crânio num desenho clássico em papel envelhecido.
Cenas de um rio.
Trilha do Massive Atack.
Créditos iniciais.
Fade out.
Fade in.
House vem manquitolando e abre, com a bengala, a porta da sala de um oncologista seu amigo, Wilson, que antes de se formar em medicina foi o protagonista de Sociedade dos Poetas Mortos.
House – que antes de se formar em medicina e tornar-se o maior expert em diagnósticos da américa, foi o pai de um rato chamado Stuart Little – discute alguma bobagem cotidiana com Wilson. São amigos, mas Wilson parece ter vocação para o masoquismo porque suporta, geralmente calado, as constantes agressões verbais e psicológicas impostas por House.
A cena termina com House dizendo alguma coisa inteligente, que faz com que o rosto de Wilson assuma uma feição entre o intrigado e o fascinado.
Corta para House entrando em sua sala. Na verdade, são duas salas conjugadas amplas, decoradas com esmero. A de House, à direita, tem um computador que praticamente não será usado, mas serve aos propósitos de product placement.
Uma poltrona confortável e uma cadeira Aeron. A sala de discussões tem uma mesa de alumínio, uma máquina de fazer café que House costuma usar enquanto agride sua equipe com comentarios politicamente incorretos. Imediatamente após sua entrada em cena, a equipe de médicos da os primeiros detalhes do caso do executivo.
A equipe é democratica, tem um negro, um australiano, uma lésbica e um judeu.
Todos eles estão sempre dispostos a constantes humilhações, pelo menos nos últimos quatro anos. O que faz pensar que o masoquismo talvez seja contagioso e transmitido pelo ar condicionado do hospital.
Outra coisa que você perceberá é que essa equipe de cinco médicos (que nunca acerta nenhum diagnóstico) trabalha para um único paciente de cada vez.
Cinco médicos dedicados 24/7 ao mesmo paciente, seja ele rico, pobre, adulto ou criança com ou sem plano de saúde.
Pois bem, na mesa de trabalho a equipe de House arrisca dois ou três diagnósticos possíveis, sempre discordando entre si. Nunca há consenso. Um dos diagnósticos é invariavelmente Lupus, apesar de nunca terem tido um único caso da doença ao longo de seis temporadas. House os descarta com uma argumentação absolutamente incompreensível para leigos.
Até mesmo os médicos de sua equipe frequentemente não entendem porque foram desqualificados com tanta facilidade e veemência pelo chefe.
Mais uma ou duas rodadas de diagnósticos. Até que combinando uma ou duas opções, House designa tarefas para toda a equipe. As tarefas resumem-se a tomografias, análises laboratoriais, eventuais cirurgias até improváveis e inexplicáveis invasões não autorizadas à casa do paciente. Investigações, neurocirurgias, tomografias e exames laboratoriais são sempre executadas pelos próprios médicos, mostrando que apesar dos fartos recursos do hospital, cada médico deve ser versátil e saber operar microscópios, bisturis, tomógrafos e abrir fechaduras com igual destreza.
Os médicos designados para os exames discutem problemas pessoais. Aqueles que invadiram a casa do paciente, também. O paciente na tomografia sempre tem algo a dizer, interferindo o diálogo dos médicos ou tendo um ataque qualquer.
Fade out.
Fade in.
Cena aérea do hospital, quase sempre coberto de neve.
Após os exames, um dos membros da equipe visita o doente, que está internado sempre no mesmo quarto, à direita do elevador e de frente para a central de enfermagem do andar. As enfermeiras passam a vida organizando pastas e eventualmente são chamadas para ajudar quando o paciente tem um colapso qualquer, que descarta todos os diagnósticos a que chegaram até o momento, tornando, assim, todos os exames e os últimos vinte minutos de programa completamente inúteis.
Enquanto isso, House volta a humilhar Wilson ou assume uma postura de agressor/sedutor com a diretora do hospital, Cuddy, com a qual parece ter um affair não resolvido. Cuddy, uma mulher com trinta e muitos anos, é solteira e depressiva, mas parece corresponder aos galanteios eventuais de House. Além disso, apesar dos milhares de casos do hospital, sempre está bem informada sobre o caso específico que House e sua equipe estão cuidando.
Corta.
Agora estão todos discutindo novos diagnósticos possíveis. Enquanto isso o paciente piora. Agora o sangue sai também pela orelha e pelo nariz. House não se importa. Os médicos correm todos para atender à emergência. Quando chegam ao quarto, está a mulher do sujeito. Ou o filho. Ou a mãe. Ou o namorado gay. Ou o lavador de janela que na verdade é seu namorado gay. Qualquer dessas possibilidades, geralmente a mais inusitada ou desconfortável.
Quando os médicos entram no quarto, o paciente sofre um colapso qualquer, sempre naquele exato momento.
É quando House entra pela primeira vez no quarto. Humilha os médicos, o executivo, o lavador de janelas gay. Aperta o pulso do sujeito, enfia uma agulha na parte interna da coxa e o sujeito magicamente sai de seu estado catatonico.
House agride a todos com um comentário homofóbico, agnóstico ou racista e sai da sala mancando, sob os olhares de admiração de todos os masoquistas. Principalmente o paciente que, logo após uma parada cardíaca, está tranquilo com o conforto de saber que está nas mãos de um médico grosso, coxo, porém brilhante.
House tem uma discussão existencial qualquer com Wilson e Cuddy. A cena termina com Wilson, Cuddy ou ambos olhando House se afastar e pensando “esse House não tem jeito mesmo…” . A discussão, via de regra, é piegas, mas sempre deixa a gente pensando como ele é absolutamente fora da curva, com seus insights inesperados. É neste ponto que somos apresentado ao dilema moral, a mensagem principal do episódio.
Mais uma rodada de humilhações à equipe que tenta desesperadamente encontrar um diagnóstico que combine com a ampla gama de sintomas que o pobre executivo demonstra agora, expelindo sangue por todos os orifícios do corpo, hematomas, bolhas na pele. O sujeito tem apenas horas de vida.
A equipe vai tentar um último recurso.
House continua impávido, indiferente ao problema do paciente. Vai ao refeitório, rouba a comida de Wilson e num olhar fugaz, vê que estão lavando os pratos com detergente.
Seu rosto se ilumina.
Deixa Wilson falando sozinho.
Corta.
House entra no quarto do paciente tranquilamente. Os médicos já estão ali, todos sem esperanças ou aguardando pelo veredito final de House que pergunta ao lavador de janelas se ele usa produtos à base de polipropileno, ou outra substância qualquer. O lavador de janelas gay é, na verdade, formado em química e dá a composição exata do detergente. House encontra uma bizarra correlação entre as relações sexuais dos dois e o fato do lavador de janelas nunca lavar as mãos depois do trabalho, contaminando o executivo com beta-propil-metano que é uma substância cancerigena e mutagênica, ainda mais para o executivo, que é alérgico e ninguém sabia.
Em dois dias tomando soro fisiológico e antibiótico o executivo está visivelmente melhor. O casal se abraça diante do médico judeu, que é para misturar as referências sociais e étnicas, pois ao fundo passa caminhando uma enfermeira negra, carregando duas ou três pastas.
House agora está na casa de Wilson, tocando um standard de blues ou jazz ao piano. Diz meia duzia de frases a Wilson, concluindo enigmaticamente a questão existencial proposta anteriormente.
Nesse momento uma trilha bacana faz você pensar qual foi mesmo a mensagem ou qual era mesmo a doença daquele episódio. Você só tem certeza de uma coisa: não era Lupus.
Sobem os créditos.
Nunca vi House. E obrigado, agora é que não verei mesmo.
Chase é australiano, o Taub é judeu, o Wilson fornece os insights pro House na maior parte das vezes, durante as discussões. mas é por aí mesmo
E posso dizer com conhecimento de causa, que a diagnose do House é totalmente irreal.
hahaha engraçado e triste ao mesmo tempo. Triste por saber que tudo isso é verdade e todas as temporadas é exatamente isso que acontece…hahah
Só esqueceu de citar as vezes que ele para e toma aqueles comprimidos dele…
Muito bã. Morri de rir, mesmo assim, adoro ver isso tudo todas as vezes.
Cancerígeno e mutagênico me lembrou os velhos tempos da nossa benzina querida.
hahaha muito bom!
Eu adoro House, vejo todos, mas normalmente é o último da minha lista, não tenho pressa. só pq já sei mais ou menos o q vai passar.
ainda bem que a graça da série está nos diálogos dentro dessa receita de bolo. e até acho q na ultima temporada eles tem se esforçado pra mudar o formato de vez em quando.
de uns tempos pra ca a sarcoicose tem ganhado do lupus disparado.
House is the new CSI? :p
Tenho para com meus botões que se o Neto tivesse terminado Medicina ele seria o nosso House…
Valeu Rafael, corrigido:)
hahaa. adorei. pura verdade
heheh muito bom. És o diretor de arte mais redator que eu conheço.
Vi a primeira temporada do House, na 2a qdo percebi quera tudo igual parei de ver. Zorra Total Feelings.
o ‘quera’ aglutinou sem querer. Just saying
Parabéns pelo ótimo texto, realmente excelente esse enredo genérico. E obrigado pela colaboração indireta à minha tese. Vi poucos episódios de House, mas sempre achei que fosse um “Scooby-Doo” para os adultos do (frio) século 21. Agora tenho mais uma prova.
LOL! : )
Perfeito. House é isso!
Lembrando que entre uma cena e outra, ele tomava um(ns) Vicodin pra segurar a dor na perna.
Estou começando a assistir agora e… Lésbica?! E eu achando que ela ia ter alguma coisa com o House ¬¬
Na verdade, já foi Lupus pelo menos uma vez. Also… Couddy?
Descrição perfeita! Ri muito. Já cansei faz tempo. CSI também, só alguns episódios são diferenciados e olha lá.