A loja da Apple, na quinta avenida, deve ser visitada de madrugada, lá pela uma da manhã.

É a hora dos tipos mais raros, dos estrangeiros – turistas ou não – mandarem e-mails usando o WiFi de graça.
É a hora dos vendedores conversarem entre si, quase como se não tivessem a obrigação de atender ninguém tão tarde da noite.
É a hora que boa parte dos frequentadores fica mesmerizada dando voltas pela loja, procurando o que comprar, mesmo sem precisar. Um adolescente, com o pai, diante de uma prateleira repleta de jogos que não são atualizados há mais de um ano. Um sujeito gordo experimenta, um por um, todos os despertadores compatíveis com o iPhone. Um latino esfrega o chão. Outro lava o vidro do elevador.
Na mesa de iPads, estão todos com a cabeça baixa, concentrados.
As vezes esboçam um sorriso, para eles mesmos.
Pego um dos iPads que está desocupado, muito mais para ver a reação dos outros clientes.
Um senhor de oitenta e poucos anos, forte, com paletó de veludo marrom e orelhas pesadas e peludas, aproxima-se do vendedor, um mulato alto, magro, com a camiseta azul, maçã branca e o crachá pendurado no peito.

- Como é que se liga isso? – pergunta o velho, num tom quase ranzinza.
- Apertando esse botão – o vendedor olha para o cliente mostrando, com simplicidade, o gesto.
- E como é que desliga?
- É só apertar de novo. Assim. – demonstra o vendedor, orgulhoso.

Pausa. O velho olha para o iPad e para o vendedor.

- Como é mesmo? – pergunta o velho.
- Assim liga…assim desliga. – solícito, repete a operação.

Silêncio.

- E entre a hora que eu ligo e a hora que eu desligo eu faço o que?

O vendedor olha pra mim, como se estivesse procurando uma resposta.

Mas eu baixo a cabeça e faço cara de concentrado.

- Hein? – o velho continua esperando sua resposta.