5:05.
Os metereologistas, ou sei lá quem, calculam diariamente o horário do nascer e do por do sol.
É um cálculo preciso, exato. Um dado científico.
Por outro lado, cada um tem seu critério pessoal para determinar a insônia.
Insônia, para o sujeito que dorme às 10 da noite, é quando passa da meia-noite e ele não consegue pregar os olhos.
Para um boêmio, insônia pode ser quando o sono não vem nem depois de tomar o café na padaria, voltando do bar, cheirando a cigarro e cerveja.
Cada um tem sua insônia pessoal.
E eu tenho meu critério.
5:09
Para mim, não é insônia enquanto ainda está completamente escuro lá fora.
Daqui de onde estou, dá pra ver 180 graus do horizonte.
Ainda não existe aquela claridade azul no firmamento.
O céu ainda está todo preto, sem aquela cor alaranjada que avisa aos galos que é hora de cantar e aos idiotas dos passarinhos que é a hora de piar.
Digo galos do interior, porque esses da cidade grande, como tinha um vizinho meu, cantam a qualquer hora, despertados pelo caminhão de lixo pelas luzes da rua ou pelos carros que passam acelerados.
Ainda está tudo escuro, portanto, ainda não estou com insônia.
Vejo a cor da ponte estaiada. Está vermelha. Outro sinal que é noite ainda.
A frequência de carros na Marginal. São poucos ainda e não é porque é sábado.
Ainda não é insônia.
Ainda tenho alguns minutos.
5:17
Já contei milhões de carneirinhos.
Contei e levei para tosquear, pulando várias cercas no caminho.
Tosqueei cada um deles.
Estou imerso num mar de lã imaginária tão grande, que poderia aquecer a população da Sibéria.
Na verdade nem sei quantos habitantes tem a Sibéria.
Provavelmente não são muitos, o que estraga minha metáfora, mas vocês entenderam o ponto.
Na Sibéria, alias, já deve ser depois do almoço.
Hora da sesta, se é que eles tem isso.
Estou delirando.
Deve ser o sono, ou a falta dele.
Mas ainda não é insônia.
Pelo menos ainda está escuro lá fora.
5:21
A sensação não é nova, penso olhando para o teto.
Já tentei de leite quente à homeopatia, passando por florais e meditação.
Mas sou um alopata convicto.
Stillnox pra mim é amendoim.
Rivotril, Melatonina, Frontal ou Lexotan.
Tenho um pequeno estoque ao lado da cama.
Mas como ainda não clareou, pelo meu critério, ainda não estou com insônia,
então não tenho porque tomar remédio algum.
E é tarde demais para eles.
Qualquer um só vai fazer efeito às sete da manhã e rebitar minha cabeça no travesseiro até depois do almoço
quando, alias, na Sibéria já será noite.
Não que isso me importe.
Não pensem que a noite, o dia, a população ou a sesta na Sibéria me importam.
Enfim, o fato é que já passou da hora de tomar remédios para dormir.
Mas pelo menos ainda está escuro lá fora.
5:42
Desculpem.
Demorei um pouco para voltar a escrever.
Cochilei por uns minutos.
Da para notar que o volume de veículos aumentou.
É gente chegando ou partindo nesses carros todos?
Durante o dia não dá pra saber.
Mas a essa hora, deve ser gente que trabalha cedo, indo para seus empregos, mesmo no domingo.
Não dá para saber.
Talvez aquele ali esteja voltando bêbado de uma festa, olhando estático para as faixas da pista, lembrando de cenas de acidentes fatais com gente bêbada voltando de festas.
Ou pegou no sono na casa da namorada e agora está voltando para sua própria casa, só para deixar claro que não existe nenhum compromisso, como poderia parecer se ele acordasse ao seu lado.
Uma ambulância passa com a sirene ligada. As luzes de dentro estão acesas. Da para ver o vulto de alguém sentado. Deve ser uma senhora de setenta e oito anos, levando o marido para a emergência depois dele tossir sangue.
Não está mais escuro.
É muito sútil, mas o céu não está mais negro.
Deve ter clareado enquanto eu cochilava.
O dia vai começar.
Ou continuar, mesmo que eu queira que houvesse acabado por um instante, para que eu pudesse dormir.
Afinal, dias não acabam.
Não existem pausas. Só um longo contínuo de tempo.
Dias e noites, na realidade, não existem.
Os dias são só uma ilusão, uma convenção dos metereologistas que precisam justificar porque calculam todos os dias o iminente chegada e saída do sol, aqui ou na Sibéria. Ou são apenas uma imposição dos galos.
O fato é que agora é oficialmente insônia.
E não está mais escuro.