Mais uma vez vou usar o NCPM para falar de Apple.

Tenho acompanhado os comentários sobre o iPad, e tenho lido muita gente dizer [criticamente] que o iPad é um “ecossistema fechado”, que entram apenas aplicativos que passem pelo crivo da Apple, como se a empresa quisesse dominar o mundo.

Não que a Apple não queira dominar o mundo. Mas a Microsoft, a Unilever, o cara do Paquistão, o cara da Coreia do Norte, o Osama, o Obama e mais um monte de gente também querem.

O fato é que dos 140 mil aplicativos disponíveis, até onde eu sei, apenas dois tipos foram recusados:

1. Os que de alguma maneira ferem o contrato da Apple com a AT&T, porque usam banda demais ou porque tiram receita da operadora [como o Google Phone] – e lembre-se que foi esse contrato que subsidiou a criação do iPhone.

2. Aplicativos de baixa qualidade. No modelo de negócios proposto pela Apple, ela é sócia de quem produz aplicativos. Você produz, ela vende. Ora, me parece justo que a Apple – como sócia distribuidora – se de o direito de controlar o que vende. Entre outros motivos porque aplicativos de baixa qualidade criariam problema se fossem vendidos. Imagine a complexidade para devolver dinheiro aos compradores insatisfeitos. Não me refiro à logística, me refiro à subjetividade do critério de “baixa qualidade”.

Também me parece que, ao contrário do que muitos dizem a respeito do “autoritarismo” da Apple na App Store, não me lembro de nenhuma empresa de tecnologia que tenha criado um modelo onde as ferramentas para o desenvolvimento de softwares são gratuitas [XCode], o curso para aprender a utilizá-lo é gratuito [iTunesU, Stanford], e a distribuição é feita pela própria empresa, num canal exclusivo, com um fee de 30%, deixando os outros 70% para o autor do software.

Por isso, acho que esta história de “dominar o mundo”, de “controlar o que entra na plataforma” é apenas a opinião de gente desinformada sobre o modelo que a Apple criou para a distribuição de software independente.

Mas nada disso é insight meu. Nada disso é novidade.

O que me chama a atenção é que com o iPad, a Apple é uma das primeiras empresas que levou o sistema operacional de um telefone para um “computador”. E pode apostar que em breve, o iPhone OS vai estar, porque não, em notebooks. O que nos leva a outra crítica frequente. O fato de que o iPad é um iPod Touch grandão. Mas antes de sair metendo o pau, pense comigo:

Há alguns anos a Apple revolucionou o jeito de vender música, vendendo à granel. Ao invés de comprar o álbum, você vai lá e compra a musiquinha que quer por 99 centavos de dolar. A iTunes Store assumiu o que ninguém queria aceitar: música virou um produto volátil. Só os grandes fãs de uma banda querem o álbum todo. O cidadão comum, que gosta de música, quer a melhor música de todos os tempos da última semana. O hitizinho do momento. Por 99 cents.

Apesar da crítica de alguns executivos de gravadoras, que disseram que este modelo destruiu a indústria porque acabou com o “pacote de músicas” representado pelos CDs, essa mudança, na verdade, deu novo fôlego a uma indústria que estava sem saber para onde ir.

Pois bem. A mesma coisa que a Apple fez com a música, parece estar fazendo com o software [e livros e jornais].

Não me refiro ao software profissional. Me refiro à necessidade diária do usuário comum. Bits de software [ou informação] que resolvam necessidades específicas. Nada de programas pesados e lentos. Um programinha leve pra email, um browser de 99 centavos, um programa de receita, uma calculadora de gorjetas, um messenger, mapas + gps, as notícias do dia, um app de controle de gastos e assim por diante.

Tudo leve, barato, ao alcance do dedo. Feito por outros usuários, que em algum momento, sentiram a necessidade daquele aplicativo e que ainda ganharam dinheiro através da Apple ao desenvolve-lo.

Querem dominar o mundo?
Querem.
Mas numa proporção de 30% para eles, 70% para você.

Mas essa é só minha opinião.

Update: desculpe Bucco, esqueci de esclarecer isso.
Os jornais, como já acontece hoje no iPhone, podem ser lidos ou pelo browser ou por aplicativos específicos.
Seguramente os grandes jornais terão aplicativos específicos para o iPad (como já têm para iPhone).
Como desde o OS 3 de iPhone a Apple introduziu a possibilidade de compra “in-app”, isso abre uma enorme oportunidade de transformar o iPad na primeira plataforma capaz de realizar o sonho dos micropayments de notícias/conteúdo de maneira consistente. Por exemplo, no App da Folha, você assinaria apenas a coluna do José Simão, por 99 cents ao mês. Ou seja, é fazer com jornais o que já fizeram com música.