Antes de começar este texto, que evidentemente vai falar sobre o iPad, gostaria de lembrar um nome, ao prezado leitor: Al Ries.
Al Ries é uma espécie de Seth Godwin da minha geração.
O sujeito por trás de uma série de livros de auto-ajuda-empresarial que fizeram sucesso nos anos 80 e começo dos 90. Alguns estão por aí até hoje.
Entre suas obras mais conhecidas, está o livro Focus, que tem um capítulo específico para falar sobre os axiomas do marketing.
Se você não sabe o que é um axioma, não precisa ler o Al Ries. Eu mesmo explico. Axioma são aquelas afirmações que não possuem nenhuma comprovação, mas que de tanto a gente ouvir falar, viram verdade. Por exemplo, “a terra é plana” era um axioma, antes que alguém provasse o contrário.
Ok, para os puristas, admito que axioma não é exatamente isso, mas é assim que Al Ries ensina em seu livro e por isso é nesta acepção que a palavra será utilizada neste texto.
Mas não foram só os livros que notabilizaram Al Ries. Ele foi responsável por um enorme mico online: dias depois da Apple lançar o iPhone, produziu um vídeo de vários minutos explicando porque o iPhone seria um fracasso: segundo ele, nenhum produto que propõe convergência de hardware faz sucesso.
Depois de um milhão de iPhones vendidos em 74 dias, Ries admitiu seu equivoco.
Pois bem. Ao longo deste texto, vou voltar ao Al Ries.
Mas o que eu quero mesmo é falar do iPad.
Ou melhor, quero falar das reações ao iPad.
Sei que quem me conhece sabe que sou um Apple fanboy, então minha opinião pode não parecer imparcial.
E não é mesmo.
Mas vamos passar por cima desse detalhe, afinal, mais do que fanboy da Apple, sou fanboy de tecnologia. Tenho um Kindle DX que gostava muito, até algumas horas atrás.
E vou explicar porque deixei de gostar.
Só que para isso, ao invés de enaltecer as qualidades do novo lançamento da Apple, ou descrever os principais features (coisa que já fiz no UoD), prefiro falar sobre algumas reações negativas que li no twitter e nos blogs.
Claramente, mais do que qualquer outro produto recente da Apple, o iPad foi um lançamento polêmico. Gente amou, gente odiou.
E principalmente porque muitos desses comentários vieram, surpreendentemente, de pessoas que eu sei que sabem o que é um produto revolucionário, resolvi comentar sobre alguns desses pontos fracos levantados.
O primeiro deles refere-se ao fato do iPad rodar o OS do iPhone.
Antes de mais nada, vale lembrar que o iPhone OS é baseado em Unix, como o Snow Leopard. Seu potencial é enorme, o que ficou claro quando a Apple abriu o iPhone para softwares independentes. Hoje são mais de 100 mil softwares e o iPhone, em games por exemplo, tem mais títulos disponíveis que o Nintendo DS ou o PSP.
Claramente o iPhone OS tem muito mais potencial a ser explorado do que permite os limites da tela de um smartphone.
E mais.
O iPad vem com um processador de 1Ghz, versus 600MHz do iPhone. Ou seja, cerca de 35% mais rápido, com uma tela de 24 cm, o que definitivamente deve permitir aos desenvolvedores explorar os recursos do OS ao extremo.
O próprio iWorks para iPad já indica isso com versões do Keynote, Pages e Numbers.
Quando é que eu vou precisar usar isso?
Outra questão é “mas quando eu vou precisar usar esse equipamento”.
Pois bem, sabe como eu leio o Kindle? Na rede. Não na net, na rede de praia. Deito lá pra ler e levo junto meu iPhone, para checar emails e twitter de vez em quando.
Quando você vai usar?
Se você usa seu notebook na cama, vai usar.
Se você quer um GPS de tela enorme no seu carro, com bússola e tudo, vai usar.
Se você leva seu note num Starbucks para ver email, twittar ou rever um .PDF, .DOC ou .XLS, vai usar.
Se você quer fazer uma apresentação simples, ali na sala de reunião, sem ter que desligar seu notebook de hard disk externo e segundo monitor, vai usar.
Se você quer mostrar as fotos da sua última viagem, pra amigos, no sofá da sala, vai usar.
Se você leva jornal no banheiro…bom… acho que provei meu ponto, não?
Não dá pra ler numa tela brilhante.
Lembra do axioma do Al Ries? Olha ele aí. Isso é lenda.
Não dá pra ler numa tela brilhante? Bobagem. O que é que você faz de oito a dez horas por dia? A maioria de nós lê sem parar, numa tela brilhante, durante todo o dia. Sem reclamar.
Ou você escreve seus textos em máquinas de escrever? A gente LÊ o dia todo numa tela brilhante. Lê emails, lê web, lê planilhas, lê arquivos de word.
Não é um aparelho para você retocar fotos no Photoshop. Mas definitivamente, é muito mais útil que um Kindle.
Mas não acho que é por isso que o Kindle morreu.
O Kindle ta morto porque o iPad vai oferecer uma série de outras tarefas, como agenda, games, etc.
O que nos leva ao próximo axioma.
Tentar colocar tanta coisa num só produto não funciona.
Taí a gafe do Al Ries de novo.
(http://www.asourceofinspiration.com/2007/09/12/iphone-and-al-ries-convergence/)
Isso pode valer para console de games que também são blu-ray players.
Ou para TVs integradas com DVDs. Mas convenhamos, a propria apple ja provou que Al Ries falou besteira, dado o sucesso do iphone. Ou do Time Capsule que é switch, access point wifi e hard disk.
O preço é alto comparado ao Kindle.
US$ 499 é caro? Versus U$ 250 do Kindle. Como assim? pense no value for money. Kindle é e-paper. Bacana. Moderno. Mas é lento. É P&B, não é touchscreen. Não roda nem aplicativos, nem vídeos, nem games.
Ora por favor.
Enfim, o iPad é matador. Vai vender que nem água.
Vai roubar público de diversos produtos sim, como netbooks e notebooks, para o usuário que não precisa de alta performance mas está preocupado com o conforto.
Além disso, conhecendo o case da iTunes Store, vendendo música a granel, é evidente que o iPad foi feito para vender conteúdo a granel, notícias, livros, vídeos.
Claro que não é perfeito, afinal é a primeira geração. Falta uma câmera para Skype. Falta uma entrada USB.
Mas nada disso é grave. Mais uma vez a Apple inventou uma nova categoria de produto.
Netao, concordo com voce. Mas quando chega no final de semana eu pegava meu livro justamente porque queria um descanso pra vista. Adoro isso, e por isso adoro o Kindle. E mais, nao me distraio da leitura porque nao chega email e tal.. Entao eu ameio o iPad, mas acho que ele vai roubar mais o tempo que passo com meu MacBook Air e meu iPhone qd to em casa (tipo agora, no banheiro) do que do meu Kindle, na rede da praia.
Mas eu sou so um. Posso ser exceçã, meu intuito nao é combater sua profecia. Só comentar que vou ficar com meu Kindle ate eu ser o ultimo cliente da Amazon..
Mas vou ter um iPad e vou manter meu Air se for necessario…
Abs
[...] Odiou o iPad? Então leia o texto do @neto em seu blog e o post do Halex Pereira na [...]
Neto, my correct surname is Ries, with an ‘I’. Please check it in your text. Tks.
10 coisas que os Netbooks ainda fazem melhor que o iPad, sem contar multi-tarefas, claro http://bit.ly/a5uJkC
Muito bom Neto! Perfect.
Neto, concordo com você quando falamos em concorrência com o kindle. Por outro lado, usando o mesmo conceito do “value for money”, entendo o iPad como concorrendo com netbooks, e ai a relação se inverte. Já pensou nisso?
Oi Neto, que bom ler isso. Também vejo assim. O MacBook transou com o iPhone e nasceu o iPad. E nasceu herdando o melhor dos dois.
Neto concordo plenamente com você. Estava vendo o iPad como um produto diferente, acho que não tinha uma visão sobre pra que ele poderia ser utilizado no dia a dia. Bem verdade as coisas que você falou que ele será útil e acho que o Steve Jobs conseguiu denovo!
Se o Steve e o Neto estão falando, tá falado.
Eu queria um desses também, mas de graça.
Também meti o pau no Al Ries esses dias:
http://blogdomiranda.com/2010/01/14/e-o-al-ries-errou-feio-mais-uma-vez/
Abração Neto.
Neto,
excelente texto, vejo o iPad como um novo produto e também como salvação do mercado editorial e de noticias… Livros nao vão ser só textos, pode ter video, fotos animadas, etc, etc. E revistas e jornais então? Imagine ler uma Wired com infograficos animados e com videos? As assinaturas digitais vão crescer vertiginosamente.
E muito me impressiona as pessoas continuarem a achar horrivel não ter plugin de flash… Flash já era, todo desenvolvedor já sabe disso. A apple já sabe tb e nao tem motivo de se esforçar(e que esforço!) pra colocar no iPad um plug in que já vai ser morto pelo HTML5.
Abraços,
peèle Lemos
iPad não é netbook. não é notebook. não é e-reader.
É outra coisa. Simples como isso. E pode nã oser pra todo mundo. Como qualquer outra coisa.
Marcelo e Jean,
Concordo com vocês.
Exagero de fanboy.
Eu disse ontem, logo após o lançamento, que se tratava de uma nova categoria de produto. Sendo assim, admito que o iPad não vai “matar” nem kindle, nem net/notebook.
Mas insisto que, exatamente para encontrar seu espaço, vai roubar share destes 3, não a ponto de matá-los.
Podemos fechar nisso?
Meninos, vai matar o Kindle, sim! Quem viver, verá!
Sou educadora e quando o Steve Jobs mencionou a possibilidade de incorporar textbooks eu senti um arrepio!
As possibilidades de um equipamento deste num ambiente educacional são infinitas e eu só queria poder contar com o lugar e a tecnologia pra começar a implementar programas!
Aqui nos EUA, as coisas não seguem com a velocidade que a maioria imagina existir em termos de educação e tecnologia… como diz a música, o futuro começou ontem e a gente já está atrasada!
eu já tinha concordado neto. só tenho a impressão mesmo de que é um ‘novo treco’ para ocupar um novo espaço. coisas que a gente já sabe que a apple inventa.
to contigo e não abro
Concordo com quase tudo. Apesar de ficar o dia inteiro no computador, eu leio espaçadamente. Quando quero estudar, por mais que seja um PDF no monitor, não consigo estudar por muito tempo. Cansa mais rapido.
Estudar com material impresso é mais confortável no meu caso. E nisso eu acho o Kindle melhor. Só nisso.
Tamos fechados!
Agora apenas pra descontrair: vc viu a comparação do iPad com uma Pedra: http://img407.imageshack.us/img407/7930/stonevsipad.jpg
Abs
Neto,
Não acredito que o iPad vá ser esse puta sucesso, mas também longe de ser um fracasso. Só achei uma mega bola fora dos caras não fazer esse device ser multitask.
abraços
O iPad é um centro de entretenimento portátil. Não roda Photoshop porque não foi feito pra isso, não é profissional, é pessoal. Jobs na Keynote citou acessar a web, emails, fotos, filmes, jogos, ebooks.
É algo pra você se divertir e se manter atualizado, não pra trabalhar, o Pages é limitado em relação ao do desktop porque não é pra você escrever um livro, apenas textos simples e como se integra ao Mac o texto pode ser melhor desenvolvido no desktop.
A Apple começou a explorar o iPod touch como plataforma de jogos, com o iPad agora matou a pau, muito mais confortável pra jogar, nem tanto pra ouvir música, mais fácil pra ver filmes e acessar a web e emails.
O iPhone na minha opinião não é melhor que os outros smartphones por causa do aparelho em si, mas pela comunidade que desenvolve pra ele. Já tinha a iTunes Store, App Store e agora com a iBookstore então tá completo (eu acho rs). Como diria o jobs “It’s Amazing!” rs.
Sinceramente? Do jeito que está, o iPAD corre sérios riscos de se tornar o Laser-Disc do século 21. E quem teve um sabe do que estou falando…
Neto, muito bom.
Por ser uma nova categoria de produtos, ele vai transformar muitos negócios. Por exemplo o The New York Times acaba de ressuscitar.
Os ebooks, podem ter muitos extras como videos, agregador de comentários, trilha sonora e etc…
As editoras também poderão cobrar por assinatura por títulos.
Jogos então, nem se fala, vai dar pra jogar praticamente todos jogos de tabuleiro.
E profetizando um pouco, vai ser o gadget dos deficientes visuais.
[ ]’s
Adorei suas explicações, tudo ficou mais claro…
Acho q o iPad não vai substituir os e-readers por q é mto mais agradável ler numa tela sem-luz, cansa muito menos os olhos. E quem gosta de ler, mesmo, não vai precisar misturar tanta coisa assim. Afinal, é até bom ficar longe de e-mail, twitter, essas tralhas todas. Mas, quem viver, verá.
Muito bom o artigo. Parabéns pela análise! O ruim é ter que esperar pelas melhorias do iPad depois do lançamento.