Durante esses anos que venho aprendendo a educar minhas três filhas, sempre tive algumas intenções muito claras.
Nunca quis que elas fossem expostas à informações que não fossem compatíveis com suas idades. Meu pesadelo era ver uma de minhas filhas, com quatro anos, dançando na boquinha da garrafa, ou vestida de mini-hooker.
Por outro lado, também não queria que fosse imposta a elas uma infância de brinquedos educativos, que convenhamos, pode deixar os dias de chuva ainda mais enfadonhos.
Pois bem, com isso em mente, venho, por conta própria, fazendo o papel de filtro de informação da maneira que me parece mais adequada. Faço o melhor que posso para educar três meninas, uma de sete, uma de nove e uma de dez anos de maneira a manter o fluxo de informação compatível com suas idades. Sou o censor mor. O Torquemada juvenil. Online só entra Google Kids, na TV tem Discovery Kids e mais meia dúzia de canais. Novelas e programas de auditório, nem sabem que existe. Livros de montão, jogos educativos. Tá…uma porrada de Barbies, American Girls, Pollys, que ninguém é de ferro. E assim vamos tocando a vida.
Hoje, na Livraria da Villa, tinha a missão de encontrar um livro para minha filha de 10 anos.
Explico: a moda no momento, entre ela e as amigas, é a série Twilight.
Ela viu os dois primeiros filmes e leu o próximo livro da série, “Eclipse”.
Eu não estava exatamente confortável com isso, mas assisti os filmes com ela e li parte do livro antes de deixar que ela o fizesse. Vá lá.
Só que agora ela queria ler o quarto livro, “Amanhecer”.
Esse, infelizmente, está difícil de passar pela censura local, mas estou lendo, antes de queimá-lo na fogueira do inapropriado.
Apesar disso, não queria desestimular a ideia dela ler um livro “grosso”, já que estava orgulhosa de ter lido as mais de 200 páginas de “Eclipse”.
Então estamos lá, ela e eu, na livraria, procurando outro livro “grosso”, liberado para menores.
Aí a constatação: é difícil encontrar livros interessantes e atuais para uma menina dessa idade.
Basicamente, são três tipos de livros: séries de dragões, magos, vampiros; livros que refletem a cultura Hannah Montana, fúteis como um seriado da Disney; ou histórias razoavelmente interessantes, mas muito infantis, para o que já está exposta minha filha – mesmo com todo cuidado que tomo.
No Twitter, dividi minha dificuldade.
E como sempre, choveram sugestões.
De todos os tipos.
Algumas para crianças menores, outras para adolescentes bem mais maduros que a minha filha.
Fui lendo as sugestões e pensando que a profusão de dicas só mostra como é realmente difícil a escolha de um livro infantil (ou infanto-juvenil, como gostam as editoras), de qualidade.
Mas três sugestões, valem um comentário mais detalhado e uma confissão de culpa.
A primeira foi a do Fabio Yabu (que entende do assunto mais do que todos nós juntos), sugerindo a série Píppi Meialonga, de Lygia Bojunga. Infelizmente (ou felizmente) Manu já leu a série inteira.
A segunda sugestão, na verdade veio de várias pessoas, sugerindo “O Gênio do Crime” e outros clássicos realmente adequados para a idade, mas que a escola já “obriga” a leitura.
Foi a terceira sugestão que me deixou realmente triste.
A ponto de me fazer questionar se o projeto anti-axé que me propus há 10 anos, falhou.
A dica veio do Jean Boechat, sugerindo que eu levasse Monteiro Lobato.
Lembro perfeitamente como li Reinações de Narizinho e outros livros do Sítio quando tinha por volta de 10 anos.
Sei que o que vou dizer pode soar como um pecado e lamento realmente que tenha acontecido. Mas, infelizmente, Monteiro Lobato perdeu a guerra aqui em casa.
Não foi literatura imposta pela escola das meninas e foi triste constatar que os livros não possuem nenhum apelo para minhas filhas. Nem para a de sete, nem para a de nove e nem para a de dez.
Juro que tentei, mais de uma vez.
Comprei, fiz com que lessem algumas partes, li junto, contei as histórias. Nada.
Imagino que expostas ao IMAX 3D, aos DVDs que podem repetir uma história idiota de um ogro verde diuturnamente, aos Nintendos DS, aos PSPs, aos Wiis…enfim…é muito difícil que se interessem pela vida ingênua e mágica dos personagens de Monteiro Lobato.
Juro que eu tentei.
Mas nessa, falhei.