Faz um tempo que estou procurando um bom tema para escrever o ducentésimo post do NCPM. Essa é uma bela marca, considerando que isso aqui não é um blog de referências e sim um diário, com textos [quase] originais, como diz lá no “about”.

O fato é que não aparecia nada interessante.

Nem mesmo a tragédia do Haiti serviu de mote. Afinal, o que dizer de uma tragédia natural, sem culpados, sem lógica, sem explicações.

Aí estava aqui assistindo Dois Perdidos numa Noite Suja, baseado na peça de mesmo nome e me ocorreu que seu autor, Plínio Marcos, anda bem esquecido.

Plínio Marcos foi o nosso Bukowski. Nasceu em Santos, estudou apenas até concluir o primário, foi funileiro, jogador de futebol, mas foi só depois de conhecer a escritora modernista Pagu, é que passou a escrever peças de teatro. Com Barrela e Navalha na Carne, conseguiu se transformar num ícone da nossa contra-cultura.
Plínio escreveu para o Pasquim, Última Hora e Folha de São Paulo sem nunca ceder à censura.

Mas isso tudo você descobre dando um Google.

Meu post 200 é sobre a honra que tive em conhecer Plínio mesmo que por alguns segundos.

Os livros de Plínio Marcos eram muitas vezes editados por ele mesmo, que vestia um macacão e montava sua barraquinha em feiras e faculdades.

Foi numa dessas barraquinhas que o vi, lá pelo início dos anos 80. Pude reconhece-lo, porque lembrava de Beto Rockefeller, novela que ele havia atuado com Luiz Gustavo, no final da década de 60. Mas pensando bem, naquela época ele sempre aparecia num ou outro programa de entrevistas.

Plínio estava sentado no chão, fumando um cigarro, sem nenhuma intenção de se esforçar para vender nada. Comecei a folhear seus livros. Nessa hora chega uma garota, ve que são todos trabalhos do mesmo autor e me pergunta:

- Você conhece esse Plínio Marcos?

Olhei para ele, sentado no chão e respondi:

- Ah…ele escreve aí umas coisas. – e sorri para ele.

- Engraçado…tantos livros…nunca li nada dele. – ela continuou sem perceber quem estava a sua frente.

Do chão, Plínio deu outro trago profundo e falou arrastado:

- A mãe dele gosta de tudo que ele escreve. – virou o rosto, desinteressado.

Foi o suficiente para que a menina desistisse da compra.

Ele olhou pra mim com um sorriso cúmplice:

- Tá foda hoje? – perguntei.

- E quando não tá? – respondeu.

Ele tragou novamente e olhou para o chão. Peguei um exemplar do meu livro preferido, Querô.

- Autografa esse pra mim?

- Opa.

Levantou, apoiou a bituca do cigarro na banca, limpou as mãos no macacão, e escreveu na primeira página:

Fudido pra caralho, mas minha mãe gosta de mim. Plínio Marcos

Plínio morreu aos 64 anos.