Eu não sou especialista em nada.
Não entendo nada de segurança.
Nem de crime.
Não entendo exatamente a dinâmica dos morros do Rio.
Não sou capaz, sequer, de citar o nome de mais de meia dúzia de morros: Alemão, Pavão Pavãozinho, Mangueira, Vigário Geral, Borel…
Confundo Comando Vermelho com Linha Vermelha.
Não sei exatamente o que fazem as Unidades Pacificadoras.
Só desconfio que, pelo nome, são unidades pacificadoras.
O que soa bem já que, pelo menos, têm paz no nome.
Fico imaginando quanto tempo vai demorar para que as unidades pacificadoras comecem a vender segurança para os moradores do morro. Mas isso é especulação.
A verdade é que, ao que parece, estão fazendo efeito.
Mesmo sem ser especialista, é evidente que o aconteceu no Rio foi uma das maiores violências que o Brasil já permitiu que ocorresse.
Uma prova estampada na nossa cara de que temos governantes incompetentes. E que essa incompetência perdura por anos à fio. Uma prova inequívoca que favelas não são importantes para a sociedade e que aceitamos calados que a barbárie do tráfico de drogas assumisse proporções épicas.
É uma prova cabal de que uma cidade pode se tornar decadente mesmo tendo sido a capital do Brasil. Nosso maior cartão postal.
Aos poucos, permitimos que cada morro tivesse sua Mafia particular.
E assim foi.
O morro pressionando a classe média. Empurrando a classe alta para dentro do mar, como um tsunami ao contrário.
Do Rio, saíram empresas, fugiram talentos, emigraram profissionais e se estabeleceu a dualidade: ou você é bandido, ou é vítima.
Uma guerra civil silenciosa, não admitida, que acontece todos os dias há algumas dezena de anos.
Tudo isso para dizer que hoje, ouvi a apresentação da Human Rights Watch que após profundo estudo, afirmou que a polícia do Rio mata demais.
Eu não sou especialista em nada, mas fico me perguntando, quais os critérios para essa constatação.
Ouvi que fizeram uma comparação com São Paulo, como se fosse possível comparar as duas situações.
O Rio está vivendo uma situação de exceção.
É definitivamente uma guerra civil. Contabilizando perdas de ambos os lados, são mais vítimas fatais por ano do que em guerras do Oriente Médio.
Muitas vezes os traficantes estão melhor armados para combater policiais que nem sempre foram treinados para confrontos como esse.
E não há Convenção de Genebra. É cada um por si e as granadas por todos.
Comparar essa situação especial, comparar essa polícia do Rio [que obviamente também tem suas falhas, vergonhas e vícios] com a de outras cidades, é injusto. Contabilizar as mortes só de um dos lados, só do lado dos traficantes não é honesto com quem coloca a vida para pacificar uma cidade e ingênuo para uma organização que deveria ser comprometida com a realidade histórica.