Ao que parece, o fato de ter expressado minha opinião contrária à realização das Olimpíadas no Rio em um comentário de um post, foi infeliz, já que agora é hora de ufanismo.

Afinal, onde já se viu negar o fato de que empregos e investimentos virão e que, como nunca houve o caso de um país se dar mal após uma Olimpíada, devemos cegamente acreditar que o futuro é promissor.

Pois bem, vou usar este espaço para expor minha opinião à respeito do assunto, mesmo não tendo muita razão para faze-lo já que agora é fato consumado.

Orgulho de ser brasileiro, eu tenho. Nunca pensei em sair daqui, tenho uma empresa com cerca de 100 funcionários, pago meus impostos e realmente acredito que esse país não é o país do futuro, mas tem futuro, na medida que o levarmos a sério.

Isso não me impede de ter ceticismo com relação à capacidade gerencial atual de nossos políticos e principalmente ao fato de que historicamente nosso bom senso sempre foi facilmente embriagado por uma boa dose de plumas e samba. E disso, nossos políticos entendem.

Alias, os desfiles de Escola de Samba, são boa metáfora para o que vem por aí. Pense em tudo que já foi dito sobre eles pelos sociólogos e antropólogos sociais. Pense em como é lindo o momento que nosso povo brilha e demonstra para o mundo todo nosso talento artístico.

Agora lembre como tudo se acaba na quarta-feira. As fantasias, as cores, o brilho, os carros alegóricos, não duram mais que alguns dias e, no resto do ano o povo volta para suas vidas de sempre, no Rio das favelas e não para Rio do vídeo.

Há anos não somos competentes para dar uma vida melhor para os artistas principais deste show. Há décadas aceitamos o fato de que eles, os que fazem esse espetáculo, vivem a vida toda para esses quatro dias e que são felizes como estão, em sua miséria poética.

Qual vai ser a diferença desta festa com as Olimpíadas? O que está planejado para reverter a situação de cidade sitiada que o Rio se encontra?

Não tenho nada contra as maravilhas da cidade e é promissor ver que muita gente acredita que essa festa vai mesmo tirar o Rio da decadência.

Para esses, lembro que o Rio não está decadente por falta de festa. Empresas fugiram de lá por falta de estrutura. Cariocas emigraram por falta de oportunidade. E nem vou falar da violência e do apartheid social.

Acho que o que nos falta não é Copa nem Olímpiada. O que nos falta, é simplicidade e eficiência na solução de problemas muito mais graves do que a construção de um complexo Olímpico.

Que lindo seria se a Copa e a Olimpíada viessem num momento que coroasse o trabalho de desenvolvimento, de soluções para a educação (alo? até o Enem foi fraudado), para o saneamento básico, para a distribuição mais justa de renda. Trabalho imenso que temos pela frente e que não faremos, afinal, agora é hora de nos dedicarmos a enganar o mundo. Agora é hora de fingir mais uma vez, como no vídeo, que nossas favelas não existem. É hora de chamar o exército para de novo colocar tanques na rua para garantir que a violência não atinja os turistas, é hora de fingir – de novo, como no Pam superfaturado – que somos um país de primeiro mundo.

E estou cansado de sermos os melhores do mundo nessa mentira.

Não é o dinheiro que entra que me preocupa. O problema é o dinheiro que sai. E por onde sai.

A comparação com a China chega a ser quase infantil. Por qualquer indicador que se observe, a China provou sua competência em administrar recursos externos e se transformou na potência global que é hoje.

Nossa imaturidade para lidar e gerenciar o oceano de investimentos que virão com o pré-sal, com a Copa de 2014 e agora com a Olimpíada de 2016 é evidente. E não sou só eu que digo isso. Jornais ingleses e americanos vêm destacando nos últimos meses o fato de que não seremos (como nunca fomos) capazes de gerenciar o volume dos investimentos, com nossos coronéis ainda no poder.

Não sou pessimista, nem torço para dar errado. Apenas não tenho nenhuma indicação de que vamos ser magicamente capazes de conter a fome por dinheiro, as malas pretas e as cuecas de nossos políticos. Não vejo nenhuma indicação que algo mudou na corrupção que nos cerca há gerações. E lembre-se que na China a corrupção se sustenta pela ditadura e aqui é pela nossa incompetência em reagir.

É certo que empregos virão, infra-estrutura será criada para esportes que nunca praticamos (quem  precisa, neste momento, de quadras de badminton?). Ao invés de citar exemplos dos países onde a Olimpíada foi um sucesso, acho que deveríamos estar atentos aos sinais de corrupção que já estão aí. Por exemplo o fato de termos sido o único país candidato que não apresentou os valores dos salários dos cartolas do COB.

Ou o fato de que somos o país de melhor futebol do mundo, mas que não conseguimos administrar essa riqueza porque até hoje não fomos capazes de sanear o dinheiro que escorre pelo ralo da corrupção dos Ricardos e Euricos.

Ou nossas pobres jogadores de voley, com seus salários cortados. Falta transparência em praticamente todas as Federações, hipismo, judô, natação, basquete, o próprio COB já esteve sob suspeita dezenas de vezes com acusações ao seu presidente.

Isso sem falar nas empreiteiras, que não preciso dizer quantos males já causaram para o seu e o meu bolso. Sabemos todos que somos governados por canalhas. Sabemos todos que o presidente do Senado, o terceiro na linha de sucessão foi inocentado depois de emitir centenas de decisões “secretas”. Quantas mais vão ser engavetadas até 2016?

Não me digam que a corrupção é dinheiro pequeno diante do que virá. Não subestime a ganância de nossos nobres representantes. E nem é essa a conta que faço. Não penso só no que vai ser roubado com corrupção e superfaturamento. Me preocupa mais o que vai ser investido para se acabar na quarta feira.

Não me peçam para ter esperança, nem digam que a “solução está em nossas mãos”. Não está. A solução está nos milhões de iletrados, que votam errado e nos impõem líderes incompetentes.

Espero, honestamente, estar equivocado. Espero mesmo que a Olimpíada nos lance para o futuro utópico dos mais otimistas. Mas por enquanto, fico com o comentário do twitter que mostra bem o mindset tupiniquim: com Copa em 2014 e Olímpiada em 2016, bora enforcar 2015.