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Considerando a polêmica do post que publiquei no UoD sobre uma recente ação promocional, achei que valeria a pena falar um pouco mais sobre o assunto. Não especificamente sobre essa ação, mas sobre um modelo de ação promocional muito frequente ultimamente, que combina on+off e que, eventualmente, pode criar problemas.
Me sinto no direito de falar sobre o assunto não porque me julgue melhor do que os profissionais que realizaram a tal ação. Mas porque esse é o meu negócio e acho que tenho direito de opinar, além do fato de já termos realizado ao menos três ações semelhantes e uma delas foi um rotundo fracasso por motivos semelhantes.
Vale deixar claro que é ingenuidade imaginar que uma ação mal realizada não afete a marca, ou que este é um assunto que se restringe ao “mundinho” publicitario. Ora, caso você não tenha notado, cuidar da reputação das marcas é exatamente o ofício de nós publicitários.
Outra bobagem é achar que as vendas não serão afetadas, ou que um sujeito em Canoas nem ficou sabendo da ação. Ora, a ação – e ações com essas características – não são feitas para mexer no termômetro de vendas e sim para emprestar à marca uma aura de moderninade e simpatia, que, caso tenham sucesso, se espalhará naturalmente, de maneira a colaborar para a construção do DNA da marca.
Minha mãe, ou um garoto de seis anos não são o foco de ações como essa.
Em resumo, uma ação mal realizada pode até não impactar o share de mercado, mas nenhuhma marca, hoje em dia, pode se dar ao luxo de desprezar a opinião de seus consumidores. Mesmo porque, uma ação, bem ou mal realizada, se eterniza no YouTube, nos Blogs, no Twitter, etc.
E a mistura onoff, em Promo é explosiva.
Não pela incompetência de quem executa, mas pela própria natureza da combinação Promo+Online.
Alias, o problema, constantemente aparece muito mais no braço offline do que na parcela online.
E problemas em Promos offline são inerentes ao negócio. Sempre foram. Não é à toa que nosso mercado nunca conseguiu se auto-regulamentar. Não é por acaso que o governo chamou para seus orgãos economicos, a reponsabilidade de botar ordem na casa do mercado promocional.
Quando abrimos a Bullet, era normal concorrer com agências de um sujeito só. Uma idéia na cabeça, um fracasso no ponto-de-venda.
Ao longo dos 21 anos da Bullet, ganhamos uma infinidade de concorrências não pelo planejamento ou criação, mas pela nossa capacidade de entrega, o que demanda uma estrutura enorme de gerenciamento, de logística e administração.
E leva tempo e dinheiro para montar uma equipe de campo capaz de implementar ações nos mais inusitados pontos de contato com o consumidor.
Não por acaso que nosso Diretor de Operações está na agência há mais de 10 anos. Não é a toa que temos mais de 3.000 promotores treinados e contratados todos os meses.
Todos os departamentos da agência sabem que o tendão de aquiles do nosso produto é a execução. Produtores, coordenadores de campo, supervisores trabalham para executar ações que não sejam apenas “boas ideias” ou “inovadoras”. Em promoção, as vezes a ideia tem que ceder espaço para a executabilidade.
Pode parecer um pensamento retrógrado, mas acredite. É um fato de quem vive nesse mercado há quase 30 anos.
Pois bem, a combinação do online com Promo é maravilhosa.
Traz para a Promo uma cobertura nunca imaginada. Faz com que o consumidor que era apenas abordado, passe a ter nome, endereço, interesses. O potencial é infinito. E, sinceramente, tem muta gente capaz de fazer o braço online de uma Promo onoff.
O problema é que a ampla cobertura vem acompanhada do risco de não se poder calcular quanto do buzz online vai se converter em participação offline. E conhecer o volume de consumidores participando de uma ação offline é fundamental para planejar essa ação. Na combinação de on com off, o risco de sub/super dimensionar a estrutura de campo é enorme.
E para reduzir riscos, quanto mais experiente a equipe de produção off, melhor.
No online, também. Por isso a gente escolheu uma parceria com a Ginga, exatamente porque esse não é nosso core business.
No fim do dia, o que importa mesmo, numa ação desse tipo não é o resultado de vendas, e sim o residual positivo para a marca.
A gente não é pago pra arranhar nada.

Spoiler alert.
Reflexões sobre Lost.
Se você é um desses xiitas que não pode saber como é o final do filme, melhor nem continuar lendo.
Logo após assistir ao último episódio da série Lost, o sentimento foi de libertação.
Não preciso mais criar nenhuma teoria, não preciso mais discutir a teoria dos outros. Tá lá, tudo explicado, numa espécie de híbrido que levou em conta todas as principais linhas de suposição que apareceram durante esses seis anos.
Teve a previsão de que todos estariam mortos, tiveram os universos paralelos, teve a briga entre o bem e o mal. Alias, Lost deu várias crias, como Flash Forward e até Heroes. Ou seja, qualquer escola de adivinhação pode alegar ter razão no caldeirão do J.J.
Digo que quase tudo foi explicado, porque nem assistindo o especial de uma hora e vinte que resume série, consegui entender algumas coisas.
Devo dizer, inclusive, que quem não viu este mini-documentário, não está aparelhado para enteder a série por completo.
Mais de uma vez, neste último episódio, pude perceber que alguns atores também não sabiam exatamente o que estava acontecendo. Ou talvez estivessem preocupados com seu iminente desemprego.
Alias, me ocorre que, assistindo o especial de uma hora e vinte minutos, você poderia ter gastado seus últimos seis anos em alguma coisa mais útil. Assistindo House por exemplo.
Ainda pensando nisso e considerando que meu último post foi sobre House, me preocupa que: 1. só me resta escrever sobre essas séries feitas para limítrofes passarem seu tempo, transformando esse diário num ridiculo blog de resenhas de seriados, ou 2. minha vida anda tão desinteressante que não me resta mais nenhum outro assunto para escrever.
O fato é que devo ser muito estúpido, mas terminei sem saber como é que um urso polar foi parar numa ilha do Hawaii. Ou porque havia um logo do Dharma num tubarão da primeira temporada [P.S. obrigado aos singelos comentários e twits que esclareceram essa dúvida]. Também não entendi aquelas idas e vindas no tempo. Aquilo, pra dizer a verdade, é totalmente dispensável ao enredo, fora o fato de nos ter socado mais uma temporada goela abaixo.
Coisa bem de novela brasileira.
Tenho quase certeza que o período em que os personagens passaram fora da ilha, ao longo das diversas temporadas, tem a ver muito mais com estratégias de product placement do que com a história. Afinal, como é que você vai enfiar um telefone Cisco na maldita ilha?
Outra coisa que não me parece muito clara é a relação entre o eletromagnetismo e o Mal representado pela fumaça negra [que assume várias personalidades, sempre de gente que morreu, a saber: o pai do Jack, o irmão de Jacob e John Lock].
A não ser que a fumaça negra seja formanda por limalha de ferro.
Alias, naquela festa na igreja ecumênica, na última cena (notaram os vitrais politicamente corretos com referências às principais religiões?), acho que vi o Daniel Filho, o Murilo Benício e o José Wilker.
Vamos fazer assim: ao invés do roteiro fragmentado, vou dar minha versão da história e vocês, nos comments, vão corrigindo, ok?
Era uma vez uma ilha que está numa posição qualquer do mundo que a coloca como uma espécie de portal entre o bem aqui de fora, e o mal de là de dentro, uma referência meio óbvia à céu e inferno e bla, bla, bla.
Este portal/ilha sempre teve, desde o início dos tempos, um guardião, que herdava de seu antecessor, a funçāo de manter o Mal contido no “coração da ilha”.
Essa característica da ilha de ser uma fina linha entre o bem e o mal, lhe confere uma capacidade eletromagnética fora do comum.
Lá pelo século XV, a ilha era guardada por uma mulher, que roubou dois irmãos recém nascidos de outra mulher que aparaceu na ilha, naufraga. Esses irmãos, representando novamente o contraste entre o bem e o mal, era um loiro e um moreno, cabendo obviamente ao loiro, a herança de guardar a ilha. O outro irmão fica com tanta raiva que mata a própria mãe.
Num confronto com Jacob, o irmão loiro, o irmão moreno acaba morrendo e sendo atirado no coração da ilha, fato que, por alguma razão inexplicável, liberta a fumaça negra. A tal fumaça é o tal Mal, que não pode ser destruído e que lutará ao longo dos tempos para escapar da ilha, matando de alguma forma o guardião e saindo da ilha, numa metafora de que o Mal finalmente se espalharia pelo mundo.
Anota aí: a fumaça não pode matar o guardiāo da ilha, nem por ninguém que ele tenha tocado.
E assim Jacob foi o guardião da ilha, até que um grupo de cientistas malignos, a Dharma Initiative chegou à ilha e começou a fazer testes com o tal eletromagnetismo, sem saber que estava mexendo com fogo. Um dos funcionários da Dharna, Charles Whitmore, no futuro voltaria para ilha com intenções sabe-se lá de que.
Um certo dia, um tal de Desmond, imune ao eletromagnetismo, faz uma burrada e derruba um avião que curiosamente estava cheio de gente que Jacob tocou. Eram os candidatos a substitui-lo.
Aí começa a confusão. Os caras do avião se encontram com sobreviventes da Dharma que ainda estavam na ilha desde os anos setenta. Seguem-se duas temporadas com um grupo brigando com o outro sem que nada de muito importante seja explicado, para desespero das comunidades do orkut.
Os personagens viajam para o passado, se misturam com a Dharma até que, explodindo uma bomba, são capazes de mudar o futuro, fazendo com que o acidente de avião não tenha acontecido.
E a história se divide em duas, com os mesmos personagens. De um lado continuam aprontando altas confusões na ilha enquanto seus pares [que mais tarde descobiremos que estão mortos] levam suas vidas normais. Na verdade apenas os seis que foram resgatados saem da ilha. Ou morrem, sei lá. Os restantes ficam na ilha. Os que foram, devem voltar, para terminarem com o escrutíneo organizado por Jacob.
Em resumo, na sexta e última temporada, de um lado estão os caras na ilha e de outro, eles no mundo real, como se o acidente de avião não tivesse acontecido.
No último episódio, na verdade, você descobre que todo mundo morreu. Todo mundo, menos o Ben, que herdou do Hurley, que por sua vez herdou do Jack, que por sua vez herdou do Jacob, o cargo de zelador da ilha.
Ah! Vale lembrar que Jack matou a fumaça preta quando ela assumiu as feições de John Lock.
Mas se ele matou a fumaça preta, para que precisaram continuar com um zelador na ilha é um mistério.
Em resumo, a série acabou porque todo mundo morreu.
Não posso esperar pra ver a adaptação da Globo. Vai chamar Os Perdidos na Ilha do Mal. O cenário vai ser a ilha do Luciano Huck em Angra. A Xuxa vai ser a Kate, o Renato Aragão vai ser o Jack e o Lima Duarte vai ser o John Lock.

Eu gosto de House.

Assisti a quase todos os episódios, de todas as temporadas.
Se você nunca viu, vou contar todos eles, assim você pode partir logo para outra série. Todos os episódios são basicamente assim:

Abre com duas ou três pessoas fazendo algo cotidiano, porém curioso.
Digamos, dois desses limpadores de janela de prédio. Esses que ficam pendurados do lado de fora, fazendo rapel em arranha-céus.
Enquanto os dois trabalham, são observados pela janela por um executivo de terno.
A cena é montada de maneira a induzir você a pensar que um dos limpadores de janela terá um problema qualquer, afinal, é o esperado por sua profissão de risco.

Nunca é o que acontece.

Ao invés disso, os olhos do executivo começam a sangrar.
Pingos de sangue na gravata italiana do sujeito.
Ele desmaia enquanto um dos lavadores de janela liga para 911.
Está apresentado o caso clínico do episódio.

Corta.

Corte transversal de um crânio num desenho clássico em papel envelhecido.
Cenas de um rio.
Trilha do Massive Atack.
Créditos iniciais.

Fade out.
Fade in.

House vem manquitolando e abre, com a bengala, a porta da sala de um oncologista seu amigo, Wilson, que antes de se formar em medicina foi o protagonista de Sociedade dos Poetas Mortos.

House – que antes de se formar em medicina e tornar-se o maior expert em diagnósticos da américa, foi o pai de um rato chamado Stuart Little – discute alguma bobagem cotidiana com Wilson. São amigos, mas Wilson parece ter vocação para o masoquismo porque suporta, geralmente calado, as constantes agressões verbais e psicológicas impostas por House.

A cena termina com House dizendo alguma coisa inteligente, que faz com que o rosto de Wilson assuma uma feição entre o intrigado e o fascinado.

Corta para House entrando em sua sala. Na verdade, são duas salas conjugadas amplas, decoradas com esmero. A de House, à direita, tem um computador que praticamente não será usado, mas serve aos propósitos de product placement.
Uma poltrona confortável e uma cadeira Aeron. A sala de discussões tem uma mesa de alumínio, uma máquina de fazer café que House costuma usar enquanto agride sua equipe com comentarios politicamente incorretos. Imediatamente após sua entrada em cena, a equipe de médicos da os primeiros detalhes do caso do executivo.
A equipe é democratica, tem um negro, um australiano, uma lésbica e um judeu.
Todos eles estão sempre dispostos a constantes humilhações, pelo menos nos últimos quatro anos. O que faz pensar que o masoquismo talvez seja contagioso e transmitido pelo ar condicionado do hospital.

Outra coisa que você perceberá é que essa equipe de cinco médicos (que nunca acerta nenhum diagnóstico) trabalha para um único paciente de cada vez.
Cinco médicos dedicados 24/7 ao mesmo paciente, seja ele rico, pobre, adulto ou criança com ou sem plano de saúde.

Pois bem, na mesa de trabalho a equipe de House arrisca dois ou três diagnósticos possíveis, sempre discordando entre si. Nunca há consenso. Um dos diagnósticos é invariavelmente Lupus, apesar de nunca terem tido um único caso da doença ao longo de seis temporadas. House os descarta com uma argumentação absolutamente incompreensível para leigos.
Até mesmo os médicos de sua equipe frequentemente não entendem porque foram desqualificados com tanta facilidade e veemência pelo chefe.

Mais uma ou duas rodadas de diagnósticos. Até que combinando uma ou duas opções, House designa tarefas para toda a equipe. As tarefas resumem-se a tomografias, análises laboratoriais, eventuais cirurgias até improváveis e inexplicáveis invasões não autorizadas à casa do paciente. Investigações, neurocirurgias, tomografias e exames laboratoriais são sempre executadas pelos próprios médicos, mostrando que apesar dos fartos recursos do hospital, cada médico deve ser versátil e saber operar microscópios, bisturis, tomógrafos e abrir fechaduras com igual destreza.

Os médicos designados para os exames discutem problemas pessoais. Aqueles que invadiram a casa do paciente, também. O paciente na tomografia sempre tem algo a dizer, interferindo o diálogo dos médicos ou tendo um ataque qualquer.

Fade out.
Fade in.

Cena aérea do hospital, quase sempre coberto de neve.

Após os exames, um dos membros da equipe visita o doente, que está internado sempre no mesmo quarto, à direita do elevador e de frente para a central de enfermagem do andar. As enfermeiras passam a vida organizando pastas e eventualmente são chamadas para ajudar quando o paciente tem um colapso qualquer, que descarta todos os diagnósticos a que chegaram até o momento, tornando, assim, todos os exames e os últimos vinte minutos de programa completamente inúteis.

Enquanto isso, House volta a humilhar Wilson ou assume uma postura de agressor/sedutor com a diretora do hospital, Cuddy, com a qual parece ter um affair não resolvido. Cuddy, uma mulher com trinta e muitos anos, é solteira e depressiva, mas parece corresponder aos galanteios eventuais de House. Além disso, apesar dos milhares de casos do hospital, sempre está bem informada sobre o caso específico que House e sua equipe estão cuidando.

Corta.

Agora estão todos discutindo novos diagnósticos possíveis. Enquanto isso o paciente piora. Agora o sangue sai também pela orelha e pelo nariz. House não se importa. Os médicos correm todos para atender à emergência. Quando chegam ao quarto, está a mulher do sujeito. Ou o filho. Ou a mãe. Ou o namorado gay. Ou o lavador de janela que na verdade é seu namorado gay. Qualquer dessas possibilidades, geralmente a mais inusitada ou desconfortável.

Quando os médicos entram no quarto, o paciente sofre um colapso qualquer, sempre naquele exato momento.

É quando House entra pela primeira vez no quarto. Humilha os médicos, o executivo, o lavador de janelas gay. Aperta o pulso do sujeito, enfia uma agulha na parte interna da coxa e o sujeito magicamente sai de seu estado catatonico.

House agride a todos com um comentário homofóbico, agnóstico ou racista e sai da sala mancando, sob os olhares de admiração de todos os masoquistas. Principalmente o paciente que, logo após uma parada cardíaca, está tranquilo com o conforto de saber que está nas mãos de um médico grosso, coxo, porém brilhante.

House tem uma discussão existencial qualquer com Wilson e Cuddy. A cena termina com Wilson, Cuddy ou ambos olhando House se afastar e pensando “esse House não tem jeito mesmo…” . A discussão, via de regra, é piegas, mas sempre deixa a gente pensando como ele é absolutamente fora da curva, com seus insights inesperados. É neste ponto que somos apresentado ao dilema moral, a mensagem principal do episódio.

Mais uma rodada de humilhações à equipe que tenta desesperadamente encontrar um diagnóstico que combine com a ampla gama de sintomas que o pobre executivo demonstra agora, expelindo sangue por todos os orifícios do corpo, hematomas, bolhas na pele. O sujeito tem apenas horas de vida.

A equipe vai tentar um último recurso.

House continua impávido, indiferente ao problema do paciente. Vai ao refeitório, rouba a comida de Wilson e num olhar fugaz, vê que estão lavando os pratos com detergente.

Seu rosto se ilumina.

Deixa Wilson falando sozinho.

Corta.

House entra no quarto do paciente tranquilamente. Os médicos já estão ali, todos sem esperanças ou aguardando pelo veredito final de House que pergunta ao lavador de janelas se ele usa produtos à base de polipropileno, ou outra substância qualquer. O lavador de janelas gay é, na verdade, formado em química e dá a composição exata do detergente. House encontra uma bizarra correlação entre as relações sexuais dos dois e o fato do lavador de janelas nunca lavar as mãos depois do trabalho, contaminando o executivo com beta-propil-metano que é uma substância cancerigena e mutagênica, ainda mais para o executivo, que é alérgico e ninguém sabia.

Em dois dias tomando soro fisiológico e antibiótico o executivo está visivelmente melhor. O casal se abraça diante do médico judeu, que é para misturar as referências sociais e étnicas, pois ao fundo passa caminhando uma enfermeira negra, carregando duas ou três pastas.

House agora está na casa de Wilson, tocando um standard de blues ou jazz ao piano. Diz meia duzia de frases a Wilson, concluindo enigmaticamente a questão existencial proposta anteriormente.

Nesse momento uma trilha bacana faz você pensar qual foi mesmo a mensagem ou qual era mesmo a doença daquele episódio. Você só tem certeza de uma coisa: não era Lupus.

Sobem os créditos.

Aqui no NCPM eu não costumo dar links. Afinal, como diz a apresentação, isso não é um blog, é um diário.
Pois bem.
O assunto do dia, é o clip da M.I.A.
Googa aí que você acha.
É polêmico, foi censurado no YouTube e bla bla bla.
Um monte de gente já falou sobre o assunto, mas eu queria registrar aqui, para minha quase nula audiência, o que me ocorreu depois de assistir ao clipe.
Lá atrás, quando o cinema, a fotografia e qualquer outro registro pictográfico foram criados, não se queria fazer política. Queriam registrar o momento. Imortalizar-se através da imagem.
Com o tempo, apareceram os documentáristas, os foto-jornalistas que subiram a barra do objetivo inicial para dar a estas mídias um caráter mais sério (?), mais importante (?) ou ao menos transformar o que era só registro, em alerta, em manifesto.
Vídeo clipes passaram por um processo parecido.
Lá no início dos anos 80 (tá, tá, eu sei que foi antes), os vídeo clipes apareceram para ilustrar o que não tinha imagem: o som das bandas como artifício pra vender mais CDs (vinil?). Ao mesmo tempo que entregavam pra MTV alguma coisa levinha, divertida pra por no ar atraindo neguinho pra televisão, ou seja, criando mais um canal de venda.
Clips de protesto, não são coisa nova.
Com o tempo, da mesma forma que aconteceu com o cinema e a fotografia, nego entendeu que os clips poderiam ser muito mais do que música ilustrada. Coincidência ou não, a cultura Hip Hop se desenvolveu fazendo lá seu protesto contra os preconceitos que nego (no pun intended) sofria.
E o vídeo clipe se transformou, também, em expressão política.
Mas eu resolvi escrever tudo isso porque, me parece, que o clip da M.I.A. tem uma diferença fundamental em relação aos clipes políticos.
Nele, a música não tem nenhuma importância.
Mas é um clip.
Nele, o diretor Romain Gavras, filho do Costa-Gavras, (aquele, do Missing e de Amen, o que já diz quase tudo) é muito mais importante do que a tal da M.I.A.
Mas é um clip.
Nele, a mensagem – um tanto sensacionalista, é verdade, mas vamos dar uma chance ao menino – é muito mais importante que a moça lá com seus acordes pseudo-porrada.
Mas é um clip.
Nele, a metáfora anti-racista, anti-fascista, anti-autoritarismo, apesar de quase primária, é muito mais importante que a audio-legenda “born free” que a moça não para de repetir.
Chega a dar a impressão que o Romain Gravas queria mesmo era fazer o curta e disse pra M.I.A.: “põe um sonzinho qualquer aí.”
Curioso: justo quando as gravadoras e a MTV agonizam, é a política que vem novamente colocar a música no radar.
É agressivo, é bom de ver, dramático, bem dirigido.
Mas é um clip.

A loja da Apple, na quinta avenida, deve ser visitada de madrugada, lá pela uma da manhã.

É a hora dos tipos mais raros, dos estrangeiros – turistas ou não – mandarem e-mails usando o WiFi de graça.
É a hora dos vendedores conversarem entre si, quase como se não tivessem a obrigação de atender ninguém tão tarde da noite.
É a hora que boa parte dos frequentadores fica mesmerizada dando voltas pela loja, procurando o que comprar, mesmo sem precisar. Um adolescente, com o pai, diante de uma prateleira repleta de jogos que não são atualizados há mais de um ano. Um sujeito gordo experimenta, um por um, todos os despertadores compatíveis com o iPhone. Um latino esfrega o chão. Outro lava o vidro do elevador.
Na mesa de iPads, estão todos com a cabeça baixa, concentrados.
As vezes esboçam um sorriso, para eles mesmos.
Pego um dos iPads que está desocupado, muito mais para ver a reação dos outros clientes.
Um senhor de oitenta e poucos anos, forte, com paletó de veludo marrom e orelhas pesadas e peludas, aproxima-se do vendedor, um mulato alto, magro, com a camiseta azul, maçã branca e o crachá pendurado no peito.

- Como é que se liga isso? – pergunta o velho, num tom quase ranzinza.
- Apertando esse botão – o vendedor olha para o cliente mostrando, com simplicidade, o gesto.
- E como é que desliga?
- É só apertar de novo. Assim. – demonstra o vendedor, orgulhoso.

Pausa. O velho olha para o iPad e para o vendedor.

- Como é mesmo? – pergunta o velho.
- Assim liga…assim desliga. – solícito, repete a operação.

Silêncio.

- E entre a hora que eu ligo e a hora que eu desligo eu faço o que?

O vendedor olha pra mim, como se estivesse procurando uma resposta.

Mas eu baixo a cabeça e faço cara de concentrado.

- Hein? – o velho continua esperando sua resposta.

5:05.
Os metereologistas, ou sei lá quem, calculam diariamente o horário do nascer e do por do sol.
É um cálculo preciso, exato. Um dado científico.
Por outro lado, cada um tem seu critério pessoal para determinar a insônia.
Insônia, para o sujeito que dorme às 10 da noite, é quando passa da meia-noite e ele não consegue pregar os olhos.
Para um boêmio, insônia pode ser quando o sono não vem nem depois de tomar o café na padaria, voltando do bar, cheirando a cigarro e cerveja.
Cada um tem sua insônia pessoal.
E eu tenho meu critério.
5:09
Para mim, não é insônia enquanto ainda está completamente escuro lá fora.
Daqui de onde estou, dá pra ver 180 graus do horizonte.
Ainda não existe aquela claridade azul no firmamento.
O céu ainda está todo preto, sem aquela cor alaranjada que avisa aos galos que é hora de cantar e aos idiotas dos passarinhos que é a hora de piar.
Digo galos do interior, porque esses da cidade grande, como tinha um vizinho meu, cantam a qualquer hora, despertados pelo caminhão de lixo pelas luzes da rua ou pelos carros que passam acelerados.
Ainda está tudo escuro, portanto, ainda não estou com insônia.
Vejo a cor da ponte estaiada. Está vermelha. Outro sinal que é noite ainda.
A frequência de carros na Marginal. São poucos ainda e não é porque é sábado.
Ainda não é insônia.
Ainda tenho alguns minutos.
5:17
Já contei milhões de carneirinhos.
Contei e levei para tosquear, pulando várias cercas no caminho.
Tosqueei cada um deles.
Estou imerso num mar de lã imaginária tão grande, que poderia aquecer a população da Sibéria.
Na verdade nem sei quantos habitantes tem a Sibéria.
Provavelmente não são muitos, o que estraga minha metáfora, mas vocês entenderam o ponto.
Na Sibéria, alias, já deve ser depois do almoço.
Hora da sesta, se é que eles tem isso.
Estou delirando.
Deve ser o sono, ou a falta dele.
Mas ainda não é insônia.
Pelo menos ainda está escuro lá fora.
5:21
A sensação não é nova, penso olhando para o teto.
Já tentei de leite quente à homeopatia, passando por florais e meditação.
Mas sou um alopata convicto.
Stillnox pra mim é amendoim.
Rivotril, Melatonina, Frontal ou Lexotan.
Tenho um pequeno estoque ao lado da cama.
Mas como ainda não clareou, pelo meu critério, ainda não estou com insônia,
então não tenho porque tomar remédio algum.
E é tarde demais para eles.
Qualquer um só vai fazer efeito às sete da manhã e rebitar minha cabeça no travesseiro até depois do almoço
quando, alias, na Sibéria já será noite.
Não que isso me importe.
Não pensem que a noite, o dia, a população ou a sesta na Sibéria me importam.
Enfim, o fato é que já passou da hora de tomar remédios para dormir.
Mas pelo menos ainda está escuro lá fora.
5:42
Desculpem.
Demorei um pouco para voltar a escrever.
Cochilei por uns minutos.
Da para notar que o volume de veículos aumentou.
É gente chegando ou partindo nesses carros todos?
Durante o dia não dá pra saber.
Mas a essa hora, deve ser gente que trabalha cedo, indo para seus empregos, mesmo no domingo.
Não dá para saber.
Talvez aquele ali esteja voltando bêbado de uma festa, olhando estático para as faixas da pista, lembrando de cenas de acidentes fatais com gente bêbada voltando de festas.
Ou pegou no sono na casa da namorada e agora está voltando para sua própria casa, só para deixar claro que não existe nenhum compromisso, como poderia parecer se ele acordasse ao seu lado.
Uma ambulância passa com a sirene ligada. As luzes de dentro estão acesas. Da para ver o vulto de alguém sentado. Deve ser uma senhora de setenta e oito anos, levando o marido para a emergência depois dele tossir sangue.
Não está mais escuro.
É muito sútil, mas o céu não está mais negro.
Deve ter clareado enquanto eu cochilava.
O dia vai começar.
Ou continuar, mesmo que eu queira que houvesse acabado por um instante, para que eu pudesse dormir.
Afinal, dias não acabam.
Não existem pausas. Só um longo contínuo de tempo.
Dias e noites, na realidade, não existem.
Os dias são só uma ilusão, uma convenção dos metereologistas que precisam justificar porque calculam todos os dias o iminente chegada e saída do sol, aqui ou na Sibéria. Ou são apenas uma imposição dos galos.
O fato é que agora é oficialmente insônia.
E não está mais escuro.

Li, recentemente, dois artigos interessantes sobre a Apple e achei que valia a pena dividir com vocês. Um fala do iPad, outro fala da saúde financeira da empresa.
O primeiro artigo é a análise de David Pogue, o jornalista-guru do NYT sobre o iPad. Ou melhor, sobre as reações ao seu lançamento.
Segundo ele, estamos entrando na segundo fase da introdução do Tablet da Apple.
A primeira fase foi o buzz anterior ao lançamento, quando todo mundo falava sem saber o que ia acontecer. Protótipos aparecem em blogs, palpites os mais descabidos se proliferam, informações supostamente secretas são divulgadas.
A segunda fase, é o lançamento em si, onde Steve Jobs dá um show na apresentação, mas ninguém experimenta, testa ou utiliza o equipamento por algum tempo. Logo após o evento, surge quem defende e quem ataca. Um monte de blogs começa a elogiar ou a meter o pau, sem ter tido nenhum contato com o aparelho. Exatamente por não conhecer detalhes, nem ter testado o iPad, Pogue preferiu não comentar sobre o o equipamento em si.
A terceira fase, segundo ele, deve vir em abril, com gente acampada em filas enormes diante das Apple Store para serem os primeiros a comprar um iPad.
A análise de David Pogue é interessante, porque realmente mostra um padrão. Coisa parecida ocorreu no lançamento do iPod e mais recentemente do iPhone. No meu blog, escrevi um texto lembrando o mico do escritor de livros de auto-ajuda-empresarial Al Ries, que protagonizou um vídeo onde afirmava que o iPhone não tinha nenhuma chance de dar certo e teve que se retratar um par de meses depois, quando o aparelho havia vendido mais de um milhão de unidades.
Enfim, tudo isso mostra que a Apple, diferente de outras empresas do setor, domina completamente a técnica de lançar um produto de tecnologia.

O que nos leva ao segundo artigo que me referi no início deste texto. Nele, o jornalista econômico Peter Gorenstein afirma que neste ano, muito mais importante do que o sucesso ou fracasso no iPad para a Apple, será outro fato: a empresa deve bater a marca de uma receita anual de 50 bilhões de dólares.

Esta é a marca onde a IBM e a HP frearam seu crescimento, principalmente porque seus produtos começaram a se transformar em comodities.
Gorenstein entrevistou o professor Richard D’Aveni, da Dartmouth’s Tuck School e autor do livro “Beating Te Commodity Trap“, algo como “Superando a Armadilha da Commodity”. Segundo ele, num dos mercados mais comoditizados do mundo, o de tecnologia, a Apple vem escapando desta cilada porque sabe como enfrentar dois dos principais desafios:
Proliferação: Quando concorrentes incluem funcionalidades semelhantes e reduzem preços, tornando os diferenciais irrelevantes.
Escalada: Quando produtos de baixo custo são lançados, oferecendo melhor relação de custo-benefício. Uma espécie de “efeito-china”.
D’Aveni acredita ainda que essa cultura de inovação, onde o iPod levou ao iPhone, o iPhone ao iPod Touch e daí ao iPad está tão presente no DNA da Apple, que até a saída de Steve Jobs não deve trazer problemas graves.
Enfim, é esperar o ano passar e conferir se Pogue e D’Aveni têm razão.

Mais uma vez vou usar o NCPM para falar de Apple.

Tenho acompanhado os comentários sobre o iPad, e tenho lido muita gente dizer [criticamente] que o iPad é um “ecossistema fechado”, que entram apenas aplicativos que passem pelo crivo da Apple, como se a empresa quisesse dominar o mundo.

Não que a Apple não queira dominar o mundo. Mas a Microsoft, a Unilever, o cara do Paquistão, o cara da Coreia do Norte, o Osama, o Obama e mais um monte de gente também querem.

O fato é que dos 140 mil aplicativos disponíveis, até onde eu sei, apenas dois tipos foram recusados:

1. Os que de alguma maneira ferem o contrato da Apple com a AT&T, porque usam banda demais ou porque tiram receita da operadora [como o Google Phone] – e lembre-se que foi esse contrato que subsidiou a criação do iPhone.

2. Aplicativos de baixa qualidade. No modelo de negócios proposto pela Apple, ela é sócia de quem produz aplicativos. Você produz, ela vende. Ora, me parece justo que a Apple – como sócia distribuidora – se de o direito de controlar o que vende. Entre outros motivos porque aplicativos de baixa qualidade criariam problema se fossem vendidos. Imagine a complexidade para devolver dinheiro aos compradores insatisfeitos. Não me refiro à logística, me refiro à subjetividade do critério de “baixa qualidade”.

Também me parece que, ao contrário do que muitos dizem a respeito do “autoritarismo” da Apple na App Store, não me lembro de nenhuma empresa de tecnologia que tenha criado um modelo onde as ferramentas para o desenvolvimento de softwares são gratuitas [XCode], o curso para aprender a utilizá-lo é gratuito [iTunesU, Stanford], e a distribuição é feita pela própria empresa, num canal exclusivo, com um fee de 30%, deixando os outros 70% para o autor do software.

Por isso, acho que esta história de “dominar o mundo”, de “controlar o que entra na plataforma” é apenas a opinião de gente desinformada sobre o modelo que a Apple criou para a distribuição de software independente.

Mas nada disso é insight meu. Nada disso é novidade.

O que me chama a atenção é que com o iPad, a Apple é uma das primeiras empresas que levou o sistema operacional de um telefone para um “computador”. E pode apostar que em breve, o iPhone OS vai estar, porque não, em notebooks. O que nos leva a outra crítica frequente. O fato de que o iPad é um iPod Touch grandão. Mas antes de sair metendo o pau, pense comigo:

Há alguns anos a Apple revolucionou o jeito de vender música, vendendo à granel. Ao invés de comprar o álbum, você vai lá e compra a musiquinha que quer por 99 centavos de dolar. A iTunes Store assumiu o que ninguém queria aceitar: música virou um produto volátil. Só os grandes fãs de uma banda querem o álbum todo. O cidadão comum, que gosta de música, quer a melhor música de todos os tempos da última semana. O hitizinho do momento. Por 99 cents.

Apesar da crítica de alguns executivos de gravadoras, que disseram que este modelo destruiu a indústria porque acabou com o “pacote de músicas” representado pelos CDs, essa mudança, na verdade, deu novo fôlego a uma indústria que estava sem saber para onde ir.

Pois bem. A mesma coisa que a Apple fez com a música, parece estar fazendo com o software [e livros e jornais].

Não me refiro ao software profissional. Me refiro à necessidade diária do usuário comum. Bits de software [ou informação] que resolvam necessidades específicas. Nada de programas pesados e lentos. Um programinha leve pra email, um browser de 99 centavos, um programa de receita, uma calculadora de gorjetas, um messenger, mapas + gps, as notícias do dia, um app de controle de gastos e assim por diante.

Tudo leve, barato, ao alcance do dedo. Feito por outros usuários, que em algum momento, sentiram a necessidade daquele aplicativo e que ainda ganharam dinheiro através da Apple ao desenvolve-lo.

Querem dominar o mundo?
Querem.
Mas numa proporção de 30% para eles, 70% para você.

Mas essa é só minha opinião.

Update: desculpe Bucco, esqueci de esclarecer isso.
Os jornais, como já acontece hoje no iPhone, podem ser lidos ou pelo browser ou por aplicativos específicos.
Seguramente os grandes jornais terão aplicativos específicos para o iPad (como já têm para iPhone).
Como desde o OS 3 de iPhone a Apple introduziu a possibilidade de compra “in-app”, isso abre uma enorme oportunidade de transformar o iPad na primeira plataforma capaz de realizar o sonho dos micropayments de notícias/conteúdo de maneira consistente. Por exemplo, no App da Folha, você assinaria apenas a coluna do José Simão, por 99 cents ao mês. Ou seja, é fazer com jornais o que já fizeram com música.

Antes de começar este texto, que evidentemente vai falar sobre o iPad, gostaria de lembrar um nome, ao prezado leitor: Al Ries.
Al Ries é uma espécie de Seth Godwin da minha geração.
O sujeito por trás de uma série de livros de auto-ajuda-empresarial que fizeram sucesso nos anos 80 e começo dos 90. Alguns estão por aí até hoje.
Entre suas obras mais conhecidas, está o livro Focus, que tem um capítulo específico para falar sobre os axiomas do marketing.
Se você não sabe o que é um axioma, não precisa ler o Al Ries. Eu mesmo explico. Axioma são aquelas afirmações que não possuem nenhuma comprovação, mas que de tanto a gente ouvir falar, viram verdade. Por exemplo, “a terra é plana” era um axioma, antes que alguém provasse o contrário.
Ok, para os puristas, admito que axioma não é exatamente isso, mas é assim que Al Ries ensina em seu livro e por isso é nesta acepção que a palavra será utilizada neste texto.

Mas não foram só os livros que notabilizaram Al Ries. Ele foi responsável por um enorme mico online: dias depois da Apple lançar o iPhone, produziu um vídeo de vários minutos explicando porque o iPhone seria um fracasso: segundo ele, nenhum produto que propõe convergência de hardware faz sucesso.
Depois de um milhão de iPhones vendidos em 74 dias, Ries admitiu seu equivoco.

Pois bem. Ao longo deste texto, vou voltar ao Al Ries.
Mas o que eu quero mesmo é falar do iPad.
Ou melhor, quero falar das reações ao iPad.
Sei que quem me conhece sabe que sou um Apple fanboy, então minha opinião pode não parecer imparcial.
E não é mesmo.
Mas vamos passar por cima desse detalhe, afinal, mais do que fanboy da Apple, sou fanboy de tecnologia. Tenho um Kindle DX que gostava muito, até algumas horas atrás.
E vou explicar porque deixei de gostar.
Só que para isso, ao invés de enaltecer as qualidades do novo lançamento da Apple, ou descrever os principais features (coisa que já fiz no UoD), prefiro falar sobre algumas reações negativas que li no twitter e nos blogs.
Claramente, mais do que qualquer outro produto recente da Apple, o iPad foi um lançamento polêmico. Gente amou, gente odiou.
E principalmente porque muitos desses comentários vieram, surpreendentemente, de pessoas que eu sei que sabem o que é um produto revolucionário, resolvi comentar sobre alguns desses pontos fracos levantados.

O primeiro deles refere-se ao fato do iPad rodar o OS do iPhone.
Antes de mais nada, vale lembrar que o iPhone OS é baseado em Unix, como o Snow Leopard. Seu potencial é enorme, o que ficou claro quando a Apple abriu o iPhone para softwares independentes. Hoje são mais de 100 mil softwares e o iPhone, em games por exemplo, tem mais títulos disponíveis que o Nintendo DS ou o PSP.
Claramente o iPhone OS tem muito mais potencial a ser explorado do que permite os limites da tela de um smartphone.
E mais.
O iPad vem com um processador de 1Ghz, versus 600MHz do iPhone. Ou seja, cerca de 35% mais rápido, com uma tela de 24 cm, o que definitivamente deve permitir aos desenvolvedores explorar os recursos do OS ao extremo.
O próprio iWorks para iPad já indica isso com versões do Keynote, Pages e Numbers.

Quando é que eu vou precisar usar isso?
Outra questão é “mas quando eu vou precisar usar esse equipamento”.
Pois bem, sabe como eu leio o Kindle? Na rede. Não na net, na rede de praia. Deito lá pra ler e levo junto meu iPhone, para checar emails e twitter de vez em quando.
Quando você vai usar?
Se você usa seu notebook na cama, vai usar.
Se você quer um GPS de tela enorme no seu carro, com bússola e tudo, vai usar.
Se você leva seu note num Starbucks para ver email, twittar ou rever um .PDF, .DOC ou .XLS, vai usar.
Se você quer fazer uma apresentação simples, ali na sala de reunião, sem ter que desligar seu notebook de hard disk externo e segundo monitor, vai usar.
Se você quer mostrar as fotos da sua última viagem, pra amigos, no sofá da sala, vai usar.
Se você leva jornal no banheiro…bom… acho que provei meu ponto, não?

Não dá pra ler numa tela brilhante.
Lembra do axioma do Al Ries? Olha ele aí. Isso é lenda.
Não dá pra ler numa tela brilhante? Bobagem. O que é que você faz de oito a dez horas por dia? A maioria de nós lê sem parar, numa tela brilhante, durante todo o dia. Sem reclamar.
Ou você escreve seus textos em máquinas de escrever? A gente LÊ o dia todo numa tela brilhante. Lê emails, lê web, lê planilhas, lê arquivos de word.
Não é um aparelho para você retocar fotos no Photoshop. Mas definitivamente, é muito mais útil que um Kindle.
Mas não acho que é por isso que o Kindle morreu.
O Kindle ta morto porque o iPad vai oferecer uma série de outras tarefas, como agenda, games, etc.
O que nos leva ao próximo axioma.

Tentar colocar tanta coisa num só produto não funciona.
Taí a gafe do Al Ries de novo.
(http://www.asourceofinspiration.com/2007/09/12/iphone-and-al-ries-convergence/)
Isso pode valer para console de games que também são blu-ray players.
Ou para TVs integradas com DVDs. Mas convenhamos, a propria apple ja provou que Al Ries falou besteira, dado o sucesso do iphone. Ou do Time Capsule que é switch, access point wifi e hard disk.

O preço é alto comparado ao Kindle.
US$ 499 é caro? Versus U$ 250 do Kindle. Como assim? pense no value for money. Kindle é e-paper. Bacana. Moderno. Mas é lento. É P&B, não é touchscreen. Não roda nem aplicativos, nem vídeos, nem games.
Ora por favor.

Enfim, o iPad é matador. Vai vender que nem água.
Vai roubar público de diversos produtos sim, como netbooks e notebooks, para o usuário que não precisa de alta performance mas está preocupado com o conforto.

Além disso, conhecendo o case da iTunes Store, vendendo música a granel, é evidente que o iPad foi feito para vender conteúdo a granel, notícias, livros, vídeos.

Claro que não é perfeito, afinal é a primeira geração. Falta uma câmera para Skype. Falta uma entrada USB.

Mas nada disso é grave. Mais uma vez a Apple inventou uma nova categoria de produto.

Durante esses anos que venho aprendendo a educar minhas três filhas, sempre tive algumas intenções muito claras.
Nunca quis que elas fossem expostas à informações que não fossem compatíveis com suas idades. Meu pesadelo era ver uma de minhas filhas, com quatro anos, dançando na boquinha da garrafa, ou vestida de mini-hooker.
Por outro lado, também não queria que fosse imposta a elas uma infância de brinquedos educativos, que convenhamos, pode deixar os dias de chuva ainda mais enfadonhos.
Pois bem, com isso em mente, venho, por conta própria, fazendo o papel de filtro de informação da maneira que me parece mais adequada. Faço o melhor que posso para educar três meninas, uma de sete, uma de nove e uma de dez anos de maneira a manter o fluxo de informação compatível com suas idades. Sou o censor mor. O Torquemada juvenil. Online só entra Google Kids, na TV tem Discovery Kids e mais meia dúzia de canais. Novelas e programas de auditório, nem sabem que existe. Livros de montão, jogos educativos. Tá…uma porrada de Barbies, American Girls, Pollys, que ninguém é de ferro. E assim vamos tocando a vida.
Hoje, na Livraria da Villa, tinha a missão de encontrar um livro para minha filha de 10 anos.
Explico: a moda no momento, entre ela e as amigas, é a série Twilight.
Ela viu os dois primeiros filmes e leu o próximo livro da série, “Eclipse”.
Eu não estava exatamente confortável com isso, mas assisti os filmes com ela e li parte do livro antes de deixar que ela o fizesse. Vá lá.
Só que agora ela queria ler o quarto livro, “Amanhecer”.
Esse, infelizmente, está difícil de passar pela censura local, mas estou lendo, antes de queimá-lo na fogueira do inapropriado.
Apesar disso, não queria desestimular a ideia dela ler um livro “grosso”, já que estava orgulhosa de ter lido as mais de 200 páginas de “Eclipse”.
Então estamos lá, ela e eu, na livraria, procurando outro livro “grosso”, liberado para menores.
Aí a constatação: é difícil encontrar livros interessantes e atuais para uma menina dessa idade.
Basicamente, são três tipos de livros: séries de dragões, magos, vampiros; livros que refletem a cultura Hannah Montana, fúteis como um seriado da Disney; ou histórias razoavelmente interessantes, mas muito infantis, para o que já está exposta minha filha – mesmo com todo cuidado que tomo.
No Twitter, dividi minha dificuldade.
E como sempre, choveram sugestões.
De todos os tipos.
Algumas para crianças menores, outras para adolescentes bem mais maduros que a minha filha.
Fui lendo as sugestões e pensando que a profusão de dicas só mostra como é realmente difícil a escolha de um livro infantil (ou infanto-juvenil, como gostam as editoras), de qualidade.
Mas três sugestões, valem um comentário mais detalhado e uma confissão de culpa.
A primeira foi a do Fabio Yabu (que entende do assunto mais do que todos nós juntos), sugerindo a série Píppi Meialonga, de Lygia Bojunga. Infelizmente (ou felizmente) Manu já leu a série inteira.
A segunda sugestão, na verdade veio de várias pessoas, sugerindo “O Gênio do Crime” e outros clássicos realmente adequados para a idade, mas que a escola já “obriga” a leitura.
Foi a terceira sugestão que me deixou realmente triste.
A ponto de me fazer questionar se o projeto anti-axé que me propus há 10 anos, falhou.
A dica veio do Jean Boechat, sugerindo que eu levasse Monteiro Lobato.
Lembro perfeitamente como li Reinações de Narizinho e outros livros do Sítio quando tinha por volta de 10 anos.
Sei que o que vou dizer pode soar como um pecado e lamento realmente que tenha acontecido. Mas, infelizmente, Monteiro Lobato perdeu a guerra aqui em casa.
Não foi literatura imposta pela escola das meninas e foi triste constatar que os livros não possuem nenhum apelo para minhas filhas. Nem para a de sete, nem para a de nove e nem para a de dez.
Juro que tentei, mais de uma vez.
Comprei, fiz com que lessem algumas partes, li junto, contei as histórias. Nada.
Imagino que expostas ao IMAX 3D, aos DVDs que podem repetir uma história idiota de um ogro verde diuturnamente, aos Nintendos DS, aos PSPs, aos Wiis…enfim…é muito difícil que se interessem pela vida ingênua e mágica dos personagens de Monteiro Lobato.
Juro que eu tentei.
Mas nessa, falhei.